A relação entre microbiota intestinal e absorção de nutrientes vem ganhando cada vez mais atenção. Entre os compostos estudados nesse contexto estão os prebióticos, como inulina, frutooligossacarídeos (FOS) e galactooligossacarídeos (GOS), que podem favorecer a absorção de minerais.
Estudos anteriores já demonstraram que a fermentação desses prebióticos pela microbiota intestinal produz ácidos graxos de cadeia curta, capazes de reduzir o pH intestinal e, consequentemente, favorecer a solubilidade e absorção de minerais como cálcio e magnésio.
Mais recentemente, pesquisadores passaram a investigar se esse efeito também poderia ocorrer com o ferro, especialmente em situações de deficiência. Os resultados, entretanto, ainda são inconsistentes e os mecanismos envolvidos permanecem em investigação.
GOS foi avaliado em modelo de deficiência de ferro
Um estudo publicado na revista Molecular Nutrition & Food Research avaliou especificamente a relação entre a ingestão de GOS e FOS e o metabolismo do ferro.
Para isso, os pesquisadores utilizaram ratos jovens submetidos inicialmente a uma dieta sem adição de ferro durante 14 dias, com o objetivo de estabelecer um modelo de deficiência desse mineral.
Posteriormente, os animais passaram a receber uma dieta padrão suplementada com diferentes concentrações de GOS — 3%, 5% ou 10% — ou 10% de FOS, durante 21 dias.
Os pesquisadores avaliaram o status de ferro dos animais, proteínas relacionadas à ligação e ao transporte do mineral e alterações na microbiota intestinal.
GOS apresentou efeito dependente da dose
Os resultados mostraram que a suplementação com GOS em concentrações iguais ou superiores a 5% da dieta melhorou o status de ferro dos animais.
Além disso, o prebiótico influenciou significativamente a expressão de proteínas envolvidas na ligação e no transporte do ferro, sugerindo que o efeito não estaria relacionado apenas à presença do mineral no intestino, mas também a alterações nos mecanismos envolvidos em sua utilização e transporte.
Outro achado relevante foi a identificação de um efeito modulador dependente da dose do GOS sobre a microbiota intestinal.
Quanto maior a concentração utilizada, maiores foram as alterações observadas na composição microbiana, reforçando a hipótese de que a interação entre prebióticos, microbiota e metabolismo mineral pode desempenhar um papel importante na disponibilidade do ferro.
Por que a microbiota pode influenciar o ferro?
Uma das hipóteses levantadas para explicar esses resultados está relacionada à fermentação dos prebióticos.
O GOS é utilizado seletivamente por determinados microrganismos intestinais, que produzem metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta. Esses compostos podem modificar o ambiente intestinal, inclusive reduzindo o pH e favorecendo a solubilização de minerais.
No caso do ferro, alterações na microbiota também podem modificar a expressão de proteínas envolvidas na absorção e no transporte do mineral.
O estudo, entretanto, foi realizado em modelo animal, portanto os resultados não permitem afirmar que as mesmas concentrações de GOS produziriam efeitos equivalentes em seres humanos.
Conclusão
A suplementação de GOS em concentrações ≥5% da dieta melhorou o status de ferro em um modelo animal de deficiência do mineral e promoveu alterações dose-dependentes na microbiota intestinal e na expressão de proteínas relacionadas ao transporte de ferro.
Os resultados acrescentam evidências ao crescente interesse pela interação entre prebióticos, microbiota intestinal e absorção de minerais, mas ainda são necessários estudos em humanos para determinar se o GOS pode efetivamente contribuir para a melhora da deficiência de ferro e qual seria a dose adequada para essa finalidade.
Relevância para a prática magistral
O trabalho reforça o interesse pelos prebióticos como ferramentas para modular a microbiota intestinal e potencialmente favorecer a utilização de determinados nutrientes.
Para a prática magistral, o GOS pode ser considerado um insumo de interesse em formulações destinadas ao suporte da saúde intestinal e da microbiota, especialmente quando associado a estratégias nutricionais voltadas à adequada ingestão de minerais.
Entretanto, é importante não extrapolar os resultados do estudo para afirmar que a suplementação de GOS seja capaz de tratar anemia ferropriva em seres humanos. A pesquisa avaliou animais com deficiência de ferro e utilizou concentrações dietéticas específicas, sendo necessários estudos clínicos para determinar a dose efetiva e a relevância desse mecanismo em humanos.
Bibliografia consultada:
Chen JH; et al. Prebiotic Oligosaccharides Enhance Iron Absorption Via Modulation of Protein Expression and Gut Microbiota in a Dose-response Manner in Iron-deficient Growing Rats. Molecular Nutrition & Food Research, 2022.
