Você consegue imaginar comer um chocolate e sentir menos prazer com o sabor doce?
Essa é uma das características mais interessantes da Gymnema sylvestre, uma planta tradicionalmente utilizada na Índia e que contém os chamados ácidos gimnêmicos.
Quando administrados na cavidade bucal, esses compostos podem reduzir temporariamente a percepção do sabor doce, sem interferir significativamente na percepção dos sabores salgado, azedo, amargo e umami.
Esse efeito costuma durar aproximadamente 30 a 60 minutos.
Mas será que essa alteração temporária do paladar poderia influenciar o consumo de alimentos doces?
O que os pesquisadores investigaram?
Um estudo avaliou 58 adultos saudáveis durante 14 dias para investigar se uma intervenção contendo Gymnema sylvestre poderia reduzir o desejo e o consumo de alimentos doces.
Os participantes foram divididos em dois grupos:
- Grupo intervenção: 4 mg de Gymnema sylvestre, padronizada em 75% de ácidos gimnêmicos, associada a fibra, vitamina e orientações de alimentação saudável;
- Grupo controle: mesmo protocolo, mas utilizando placebo em substituição à Gymnema.
Antes e depois da intervenção foram realizados testes sensoriais e avaliações envolvendo o consumo de chocolate.
Os participantes também responderam questionários de frequência alimentar para verificar possíveis alterações no consumo de alimentos doces.
E quais foram os resultados?
Após os 14 dias de intervenção, os participantes que receberam Gymnema sylvestre apresentaram redução:
- do desejo por alimentos doces;
- do prazer associado ao consumo de doces;
- da ingestão de alimentos doces.
Os resultados sugerem que a modificação temporária da percepção do sabor doce pode ter repercussões sobre o comportamento alimentar.
Como isso poderia funcionar?
Os ácidos gimnêmicos apresentam uma característica bastante particular: quando entram em contato com os receptores gustativos da boca, podem reduzir temporariamente a percepção do sabor doce.
A hipótese é que diminuir a intensidade e o prazer proporcionados pelo sabor doce possa ajudar a reduzir o desejo por esses alimentos.
É uma abordagem diferente daquela de simplesmente tentar controlar a fome.
Nesse caso, o objetivo seria atuar sobre um dos componentes envolvidos no desejo e na recompensa associados aos alimentos doces.
Mas o efeito permanece depois da intervenção?
Essa ainda é uma das questões em aberto.
Os pesquisadores destacam a necessidade de novos estudos para determinar por quanto tempo os efeitos observados após os 14 dias de intervenção permanecem e se a redução do consumo de doces se mantém após a interrupção da Gymnema.
Além disso, estudos maiores e com acompanhamento mais prolongado poderão ajudar a determinar melhor o potencial dessa estratégia.
Relevância para a prática magistral
A Gymnema sylvestre apresenta uma característica interessante para a prática magistral: seu potencial não está apenas relacionado aos mecanismos metabólicos tradicionalmente estudados, mas também à modulação da percepção do sabor doce.
O estudo pode despertar interesse para formulações individualizadas destinadas a estratégias de controle do consumo de açúcar e comportamento alimentar, especialmente quando o desejo por doces é um dos fatores considerados pelo profissional durante a abordagem nutricional.
É importante, entretanto, observar que o estudo utilizou 4 mg de um extrato padronizado em 75% de ácidos gimnêmicos, associado a outros componentes e orientação alimentar. Portanto, os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para qualquer extrato de Gymnema sylvestre.
Às vezes, para consumir menos doce, a estratégia pode começar não pela restrição, mas pela forma como o cérebro percebe o sabor e a recompensa.
Bibliorafia consultada:
Turner S; et al. The Effect of a 14-Day gymnema sylvestre Intervention to Reduce Sugar Cravings in Adults. Nutrients, 2022.
