Uso regular de medicamentos para disfunção erétil foi associado a maior risco de eventos oculares

Uso regular de medicamentos para disfunção erétil foi associado a maior risco de eventos oculares

Os medicamentos utilizados para tratar a disfunção erétil, especialmente os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), estão entre os tratamentos mais conhecidos para essa condição. Apesar de serem considerados eficazes, seu uso também é acompanhado por relatos de possíveis efeitos adversos envolvendo a visão.

Um grande estudo de coorte publicado na JAMA Ophthalmology investigou essa questão e encontrou uma associação entre o uso regular desses medicamentos e um maior risco de determinados eventos oculares.


Mais de 200 mil homens foram acompanhados

Os pesquisadores analisaram registros de 213.033 homens, com idade média de 65 anos, que receberam prescrições regulares de inibidores da PDE5 entre 2006 e 2020.

Foram considerados usuários regulares aqueles que recebiam prescrição desses medicamentos pelo menos uma vez a cada três meses.

Durante o período analisado, 1.146 participantes apresentaram pelo menos um dos três eventos oculares avaliados:

  • descolamento seroso de retina (SRD);
  • neuropatia óptica isquêmica (NOI);
  • oclusão vascular retiniana (OVR).

Para avaliar a associação, os pesquisadores compararam esses casos com 4.584 controles semelhantes.


O risco relativo foi maior entre os usuários regulares

Após a análise dos dados, os pesquisadores observaram que os homens que utilizavam regularmente os inibidores da PDE5 apresentavam mais que o dobro do risco de descolamento seroso de retina e de neuropatia óptica isquêmica em comparação aos não usuários.

Apesar disso, é importante colocar esse resultado em perspectiva.

O risco absoluto permaneceu pequeno, estimado em aproximadamente 15,5 casos por 10.000 pessoas.

Ou seja, o estudo encontrou uma associação estatística importante, mas isso não significa que a maioria dos homens que utilizam esses medicamentos desenvolverá problemas de visão.


Por que esse resultado merece atenção?

Os inibidores da PDE5 atuam aumentando a disponibilidade de óxido nítrico e promovendo vasodilatação. Como a fosfodiesterase também está presente em tecidos oculares, existe plausibilidade biológica para investigar possíveis efeitos desses medicamentos sobre a circulação e estruturas da retina e do nervo óptico.

O tema, entretanto, não é novo.

Alterações visuais já foram descritas entre possíveis eventos adversos associados aos inibidores da PDE5 desde a introdução dessa classe terapêutica. O estudo mais recente chama atenção principalmente porque avaliou uma grande população e o uso regular desses medicamentos durante um longo período.


Associação não significa causalidade

Apesar do tamanho expressivo da amostra, é importante lembrar que se trata de um estudo observacional.

Portanto, os resultados demonstram uma associação entre o uso regular dos medicamentos e determinados eventos oculares, mas não permitem afirmar, isoladamente, que os medicamentos sejam necessariamente a causa desses problemas.

Além disso, homens que apresentam disfunção erétil podem apresentar outras condições de saúde que também influenciam o risco cardiovascular e ocular.

Por isso, os resultados precisam ser interpretados dentro do contexto clínico individual.


Conclusão

O grande estudo de coorte envolvendo mais de 213 mil homens encontrou uma associação entre o uso regular de inibidores da PDE5 e um aumento no risco de determinados eventos oculares, especialmente descolamento seroso de retina e neuropatia óptica isquêmica.

Embora o risco absoluto seja pequeno, o achado merece atenção devido à ampla utilização dessa classe de medicamentos.

Os resultados reforçam a importância de que o uso de medicamentos para disfunção erétil seja acompanhado por um profissional de saúde, especialmente diante do aparecimento de alterações visuais.


Relevância para a prática magistral

Para a prática magistral, o estudo é relevante principalmente como conteúdo de atualização e segurança farmacoterapêutica.

A evidência pode ser utilizada pela farmácia para desenvolver materiais técnico-científicos destinados a urologistas, cardiologistas, oftalmologistas e outros prescritores, promovendo uma discussão mais ampla sobre o uso seguro dos inibidores da PDE5 e a importância do acompanhamento dos pacientes.

Também reforça um ponto importante na comunicação da farmácia magistral: personalização não significa apenas ajustar doses, concentrações ou formas farmacêuticas, mas também considerar o perfil clínico e os potenciais riscos associados ao tratamento.

No entanto, como se trata de uma associação observacional, o resultado não deve ser comunicado como prova de que os medicamentos causam cegueira. A informação mais adequada é que o uso regular foi associado a um aumento do risco de determinados eventos oculares, embora o risco absoluto tenha permanecido baixo.

 

Bibliografia consultada:

Etminan M; Sodhi M; Mikelberg FS. Risk of Ocular Adverse Events Associated With Use of Phosphodiesterase 5 Inhibitors in Men in the US. JAMA Ophthalmology, 2022.

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