Metformina está associada a menor risco de doenças neurodegenerativas em pessoas com diabetes

Metformina está associada a menor risco de doenças neurodegenerativas em pessoas com diabetes

Pessoas com diabetes apresentam maior risco de desenvolver algumas doenças neurodegenerativas, o que tem levado pesquisadores a investigar se medicamentos utilizados no controle metabólico poderiam também apresentar efeitos sobre a saúde cerebral.

Entre eles, a metformina, medicamento amplamente utilizado no tratamento do diabetes, vem despertando interesse por possíveis efeitos além do controle da glicemia.

Uma revisão sistemática e meta-análise avaliou justamente essa associação e encontrou um resultado interessante: pessoas com diabetes que utilizavam metformina apresentaram menor risco de desenvolver doenças neurodegenerativas, especialmente entre aquelas que utilizaram o medicamento por períodos mais longos.


Metformina pode ter efeitos além do controle da glicemia?

Pesquisas experimentais anteriores sugeriram que a metformina poderia interferir em mecanismos relacionados à função cerebral, incluindo a regulação dos níveis de dopamina e processos associados à deposição de placas beta-amiloides.

Essas observações levantaram a hipótese de que o medicamento pudesse apresentar algum efeito protetor contra doenças neurodegenerativas.

Entretanto, os resultados clínicos ainda não eram totalmente claros. Para investigar melhor essa questão, pesquisadores chineses reuniram os dados disponíveis na literatura.


O que mostrou a meta-análise?

Foram avaliados 12 estudos, envolvendo um total de 194.792 pacientes com diabetes:

  • 94.462 usuários de metformina;
  • 100.330 não usuários de metformina.

Na análise conjunta, o risco relativo de desenvolver uma doença neurodegenerativa entre os pacientes que utilizavam metformina foi de 0,77, em comparação com aqueles que não utilizavam o medicamento.

Isso corresponde a uma associação com aproximadamente 23% menor risco relativo.

Mas o resultado mais expressivo apareceu entre os usuários de longo prazo.


Quanto maior o tempo de uso, maior o efeito observado?

Entre os pacientes que utilizaram metformina durante quatro anos ou mais, o risco relativo associado ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas foi de 0,29.

Ou seja, nessa análise, o uso prolongado esteve associado a um risco relativo aproximadamente 71% menor em comparação aos pacientes que não utilizavam metformina.

Esse resultado é particularmente interessante porque sugere uma possível relação entre tempo de exposição ao medicamento e proteção neurológica.

Entretanto, é justamente nesse ponto que precisamos ter cautela: os estudos avaliados apresentaram heterogeneidade substancial, o que significa que existem diferenças importantes entre os trabalhos incluídos na análise.


Metformina pode prevenir Alzheimer?

Apesar dos resultados promissores, ainda não é possível afirmar que a metformina previna Alzheimer ou outras doenças neurodegenerativas.

A meta-análise identificou uma associação entre o uso do medicamento e menor risco desses desfechos, mas isso não comprova causalidade.

Pessoas que utilizam metformina podem apresentar características clínicas, metabólicas e comportamentais diferentes daquelas que não utilizam o medicamento. Mesmo com ajustes estatísticos, estudos observacionais estão sujeitos a fatores de confusão.

Por isso, os próprios pesquisadores destacam a necessidade de ensaios clínicos randomizados e de alta qualidade para confirmar se a metformina realmente exerce um efeito neuroprotetor.


Conclusão

A revisão sistemática e meta-análise envolvendo quase 195 mil pessoas com diabetes encontrou uma associação entre o uso de metformina e um menor risco de desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.

O efeito observado foi ainda mais expressivo entre os usuários de longo prazo, com quatro anos ou mais de tratamento.

Os resultados são relevantes e levantam a possibilidade de que a metformina tenha efeitos sobre a saúde cerebral além do controle da glicemia. Entretanto, a evidência atual não permite recomendar a metformina com a finalidade de prevenir doenças neurodegenerativas, sendo necessários ensaios clínicos para confirmar essa hipótese.


Relevância para a prática magistral

O tema é interessante para a prática magistral principalmente por aproximar dois campos que vêm ganhando cada vez mais atenção: saúde metabólica e saúde cerebral.

A associação encontrada pode ser utilizada como conteúdo técnico para discussão com endocrinologistas, neurologistas, geriatras e profissionais que atuam com longevidade, especialmente para demonstrar como o controle metabólico pode estar relacionado a mecanismos envolvidos na saúde cognitiva.

 

Bibliografia consultada:

Zhang Y; et al. Metformin and the risk of neurodegenerative diseases in patients with diabetes: A meta-analysis of population-based cohort studies. Diabetic Medicine, 2022.

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