Metformina transdérmica pode reduzir efeitos gastrointestinais e ampliar aplicações terapêuticas

Metformina transdérmica pode reduzir efeitos gastrointestinais e ampliar aplicações terapêuticas

O cloridrato de metformina é considerado o medicamento de primeira escolha para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, devido à sua eficácia na redução da glicemia, baixo custo e perfil de segurança bem estabelecido. Em adultos, o tratamento geralmente é iniciado com 500 mg ao dia, com aumento gradual da dose até aproximadamente 2 g/dia, conforme a tolerabilidade e a resposta clínica do paciente.

Apesar de sua ampla utilização, a metformina apresenta limitações importantes relacionadas à administração oral. Sua biodisponibilidade em jejum é de aproximadamente 50 a 60%, podendo ser reduzida quando administrada junto às refeições. Embora a ingestão com alimentos seja recomendada para diminuir os efeitos gastrointestinais, ela também reduz sua absorção no intestino delgado, podendo alterar seu perfil farmacocinético.

Além disso, estima-se que cerca de um em cada três pacientes apresente efeitos adversos gastrointestinais, como náuseas, diarreia, distensão abdominal, flatulência e vômitos, o que frequentemente compromete a adesão ao tratamento.


A via transdérmica como estratégia alternativa

Buscando minimizar essas limitações, diferentes pesquisas têm investigado a administração transdérmica da metformina.

Essa estratégia permite uma liberação gradual do fármaco através da pele, evitando a passagem pelo trato gastrointestinal e reduzindo as oscilações relacionadas à absorção intestinal. Consequentemente, pode haver menor incidência de efeitos gastrointestinais e melhor adesão terapêutica em pacientes intolerantes ao uso oral.

Na prática clínica, alguns prescritores têm utilizado doses transdérmicas correspondentes a 5% a 10% da dose oral habitual.

Por exemplo:

Dose oral diáriaDose transdérmica sugerida*
500 mg25 a 50 mg/dose
850 mg42,5 a 85 mg/dose
1.000 mg50 a 100 mg/dose

*A dose deve ser individualizada conforme avaliação clínica e experiência do prescritor.


Estudo brasileiro demonstra permeação pela pele

Pesquisadores brasileiros avaliaram a permeação do cloridrato de metformina utilizando a base transdérmica, em estudo publicado no International Journal of Pharmaceutical Compounding.

Os resultados demonstraram:

  • permeação de 46,7%;
  • fluxo de permeação de 3,91 µg/cm²/h;
  • tempo de latência de 0,51 hora.

Os autores concluíram que a formulação transdérmica apresentou capacidade de permeação suficiente para justificar novas investigações sobre seu potencial clínico como alternativa à administração oral, especialmente em pacientes que apresentam baixa tolerabilidade gastrointestinal.


Além do diabetes: novas aplicações dermatológicas

Além do seu conhecido efeito hipoglicemiante, estudos vêm investigando o uso tópico da metformina em diferentes condições dermatológicas, principalmente devido às suas propriedades anti-inflamatórias, antiproliferativas e moduladoras do metabolismo celular.

Entre as aplicações em investigação destacam-se:

  • acne hormonal;
  • hidradenite supurativa;
  • acantose nigricans;
  • hirsutismo associado à síndrome dos ovários policísticos (SOP);
  • psoríase;
  • melasma;
  • cicatrização de feridas.

Embora os resultados sejam promissores, grande parte dessas aplicações ainda depende de estudos clínicos maiores para definição de protocolos, concentrações e eficácia terapêutica.


Conclusão

A administração transdérmica da metformina surge como uma estratégia promissora para contornar limitações da via oral, principalmente os efeitos gastrointestinais e a variabilidade de absorção intestinal. Estudos demonstram boa capacidade de permeação cutânea e sugerem que doses significativamente menores podem produzir efeitos clínicos relevantes.

Além do tratamento do diabetes tipo 2, o uso tópico da metformina vem sendo investigado em diversas doenças dermatológicas, reforçando seu potencial como um fármaco multifuncional e abrindo novas perspectivas para a prática magistral.


Relevância para a prática magistral

A metformina transdérmica representa uma alternativa interessante para pacientes que apresentam intolerância gastrointestinal à formulação oral ou baixa adesão ao tratamento devido aos efeitos adversos.

Na farmácia magistral, a possibilidade de manipulação em bases transdérmicas, permite individualizar doses e desenvolver formulações personalizadas conforme a necessidade clínica do paciente. Além disso, o crescente interesse pelo uso tópico da metformina em dermatologia amplia as oportunidades para formulações magistrais voltadas a diferentes condições cutâneas, acompanhando uma tendência crescente da literatura científica.

 

Bibliografia consultada:

Siavash M; et al. Severity of Gastrointestinal Side Effects of Metformin Tablet Compared to Metformin Capsule in Type 2 Diabetes Mellitus Patients. J Res Pharm Pract. 2017

Bubna AK. Metformin – For the dermatologista. Indian J Pharmacol. 2016

Migdadi EM, et al. Hydrogel-forming microneedles enhance transdermal delivery of metformin hydrochloride. J Control Release. 2018

Polonini H; et al. Transdermal Delivery of Metformin Hydrochloride from a Semisolid Vehicle. Int J Pharm Compd, 2019

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