A obesidade é considerada uma das maiores epidemias de saúde pública da atualidade e está diretamente relacionada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e diversos outros problemas metabólicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 75% das mortes por doenças cardiovasculares poderiam ser evitadas por meio de mudanças no estilo de vida.
Embora alimentação inadequada e sedentarismo sejam os principais fatores envolvidos no ganho de peso, um aspecto frequentemente negligenciado é o impacto de alguns medicamentos sobre o metabolismo corporal. Diversos fármacos utilizados rotineiramente podem favorecer o aumento do peso corporal, dificultando o tratamento da obesidade e comprometendo a adesão dos pacientes.
Uma revisão sistemática e meta-análise, publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, reuniu as principais evidências disponíveis sobre essa relação.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores analisaram:
- 257 ensaios clínicos randomizados;
- 54 medicamentos diferentes;
- 84.696 pacientes.
O objetivo foi avaliar quais medicamentos estavam associados ao ganho ou à perda de peso durante o tratamento.
Quais medicamentos apresentaram maior ganho de peso?
A meta-análise identificou algumas classes farmacológicas com maior potencial de promover aumento do peso corporal.
Antipsicóticos atípicos
Esses medicamentos foram os que apresentaram um dos maiores impactos sobre o ganho de peso.
Os principais resultados foram:
- Olanzapina: +2,4 kg
- Quetiapina: +1,1 kg
- Risperidona: +0,8 kg
O ganho de peso observado está relacionado, entre outros fatores, ao aumento do apetite e às alterações no metabolismo energético.
Anticonvulsivantes e estabilizadores do humor
Entre os medicamentos avaliados, destacou-se:
- Gabapentina: +2,2 kg
Medicamentos utilizados no diabetes
Alguns agentes hipoglicemiantes apresentaram associação consistente com aumento do peso corporal:
- Tolbutamida: +2,8 kg
- Pioglitazona: +2,6 kg
- Gliburida: +2,6 kg
- Glipizida: +2,2 kg
- Glimepirida: +2,1 kg
- Gliclazida: +1,8 kg
- Sitagliptina: +0,55 kg
- Nateglinida: +0,3 kg
Embora alguns desses medicamentos promovam melhor controle glicêmico, seu potencial de ganho de peso deve ser considerado na individualização do tratamento.
Glicocorticoides
Os corticosteroides continuam entre os medicamentos mais conhecidos por favorecerem ganho de peso.
A revisão observou aumento médio de aproximadamente 4% a 8% do peso corporal, dependendo da dose e do tempo de tratamento.
Além do aumento do apetite, esses medicamentos favorecem redistribuição da gordura corporal, retenção hídrica e alterações metabólicas.
Antidepressivos
Entre os antidepressivos avaliados destacaram-se:
- Amitriptilina: +1,8 kg
- Mirtazapina: +1,5 kg
O ganho de peso pode estar relacionado principalmente ao aumento do apetite e às alterações em neurotransmissores envolvidos na saciedade.
Por que alguns medicamentos favorecem o ganho de peso?
Os mecanismos variam conforme a classe farmacológica, podendo envolver:
- aumento do apetite;
- redução da saciedade;
- diminuição do gasto energético;
- retenção de líquidos;
- alterações hormonais;
- maior deposição de gordura corporal;
- redução da atividade física devido à sedação.
Em muitos casos, mais de um mecanismo ocorre simultaneamente.
O paciente deve interromper o medicamento?
Não.
Embora alguns medicamentos possam favorecer o ganho de peso, eles frequentemente são essenciais para o controle de doenças importantes, como diabetes, depressão, epilepsia e transtornos psiquiátricos.
Qualquer alteração no tratamento deve ser realizada exclusivamente pelo médico. Em muitos casos, mudanças na alimentação, prática regular de atividade física ou substituição por medicamentos com menor impacto sobre o peso podem ser consideradas quando clinicamente apropriado.
Conclusão
A meta-análise confirma que diversos medicamentos amplamente utilizados podem contribuir para o ganho de peso, especialmente antipsicóticos atípicos, alguns hipoglicemiantes, glicocorticoides, anticonvulsivantes e determinados antidepressivos.
O reconhecimento desse efeito adverso é fundamental para que médicos, farmacêuticos e demais profissionais da saúde possam monitorar precocemente as alterações ponderais, implementar medidas preventivas e individualizar o tratamento, minimizando o impacto sobre a saúde metabólica dos pacientes.
Relevância para a prática magistral
O farmacêutico magistral pode contribuir significativamente no acompanhamento de pacientes que utilizam medicamentos associados ao ganho de peso, orientando sobre hábitos de vida saudáveis e auxiliando na individualização de estratégias complementares ao tratamento.
Dependendo da avaliação clínica e da prescrição do profissional habilitado, podem ser desenvolvidas formulações contendo ativos utilizados como coadjuvantes no controle do peso corporal, saciedade e metabolismo energético, como fibras alimentares, beta-glucanas, psyllium, glucomanano, extrato de chá verde, cafeína, EGCG, fucoxantina, berberina, entre outros compostos respaldados pela literatura científica.
Além disso, conhecer os medicamentos potencialmente obesogênicos permite ao farmacêutico identificar pacientes com maior risco de ganho ponderal e orientar o monitoramento periódico do peso e dos hábitos alimentares durante o tratamento.
Bibliografia consultada:
Domecq JP; et al. Drugs Commonly Associated With Weight Change: A Systematic Review and Meta-analysis. J Clin Endocrinol Metab. 2015
