Nutracêuticos que podem auxiliar no manejo da psoríase: o que dizem as evidências?

Nutracêuticos que podem auxiliar no manejo da psoríase: o que dizem as evidências?

A psoríase é uma doença inflamatória crônica de origem imunomediada que afeta principalmente a pele, provocando o aparecimento de placas avermelhadas e descamativas, frequentemente localizadas em regiões como cotovelos, joelhos e couro cabeludo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a psoríase apresenta prevalência estimada entre 0,09% e 11,43% da população mundial, o que faz dela uma das doenças dermatológicas crônicas mais relevantes.

Embora ainda não exista cura, diferentes estratégias terapêuticas podem ser utilizadas para controlar a inflamação, reduzir as lesões e melhorar a qualidade de vida. Além dos tratamentos convencionais, alguns nutracêuticos e compostos bioativos vêm sendo investigados como estratégias complementares.

A literatura científica reúne resultados interessantes para alguns desses compostos, embora o nível de evidência seja bastante diferente entre eles.


1. Capsaicina

A capsaicina é um composto encontrado nas pimentas e apresenta uma ação bastante particular sobre as terminações nervosas da pele.

Sua aplicação inicialmente provoca uma sensação de ardência e aumento da inflamação local, relacionada à liberação de neuropeptídeos e outros mediadores.

Com a utilização contínua, entretanto, ocorre uma redução progressiva desses neuropeptídeos, tornando as terminações nervosas menos responsivas.

Esse mecanismo pode contribuir para a redução de sintomas característicos da psoríase, como coceira, eritema e descamação.

Assim, apesar da sensação inicial de queimação, a utilização tópica prolongada da capsaicina pode apresentar efeito dessensibilizante e auxiliar no controle dos sintomas cutâneos.


2. Curcumina

A curcumina, principal composto bioativo da Curcuma longa, apresenta propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que despertam interesse no contexto das doenças inflamatórias da pele.

Em um modelo animal de lesões semelhantes às da psoríase, a administração oral de curcumina durante 21 dias consecutivos promoveu melhora significativa da aparência das lesões, das características histológicas e da proliferação dos queratinócitos.

Os pesquisadores observaram ainda uma relação com a progranulina, proteína envolvida na proliferação e diferenciação dos queratinócitos.

Os resultados sugerem um possível efeito protetor da curcumina sobre a exacerbação das lesões cutâneas. Entretanto, por se tratar de evidência experimental, ainda são necessários estudos clínicos para confirmar sua eficácia em pacientes com psoríase.


3. Aloe vera e própolis

Os produtos derivados de Aloe vera e própolis também foram investigados como opções tópicas para o manejo da psoríase.

Em um estudo envolvendo 2.248 pessoas com psoríase leve a moderada, os participantes utilizaram uma pomada contendo 50% de própolis e 3% de aloe vera ou placebo.

Os resultados sugeriram melhora dos sintomas entre os indivíduos que utilizaram a formulação contendo os compostos.

Esse tipo de abordagem é especialmente interessante para a prática magistral porque permite o desenvolvimento de formulações tópicas personalizadas, considerando características da pele, extensão das lesões e necessidades específicas do paciente.


4. Probióticos

O interesse pelos probióticos no contexto da psoríase está relacionado à crescente compreensão da interação entre microbiota intestinal, microbiota cutânea e sistema imunológico.

Pacientes com psoríase podem apresentar alterações na composição da microbiota intestinal e da pele. Dessa forma, a modulação do microbioma vem sendo estudada como uma possível estratégia complementar para auxiliar no equilíbrio da resposta inflamatória.

Entre as cepas que apresentam resultados promissores na literatura estão:

  • Bifidobacterium breve;
  • Lactobacillus paracasei;
  • Lactobacillus reuteri;
  • Lactobacillus pentosus;
  • Lactobacillus sporogenes.

É importante destacar que probióticos não devem ser tratados como uma categoria única. Os efeitos são dependentes da cepa, da dose, da combinação utilizada e das características do paciente.


5. Óleo de peixe

Os ácidos graxos ômega-3, especialmente EPA e DHA, apresentam propriedades anti-inflamatórias que justificam seu interesse no contexto das doenças inflamatórias crônicas.

Uma revisão que avaliou 15 estudos sobre a utilização de óleo de peixe em pacientes com psoríase encontrou resultados considerados promissores em 12 deles.

Entretanto, houve grande variação entre as doses utilizadas nos diferentes estudos. A média relatada foi de aproximadamente 4 g/dia de EPA e 2,6 g/dia de DHA.

Essa diferença entre protocolos reforça a importância de não extrapolar automaticamente uma dose de um estudo para todos os pacientes.


6. Selênio, vitaminas e outros minerais

O selênio é um mineral essencial envolvido em mecanismos antioxidantes e na regulação da resposta imunológica.

Na psoríase, níveis séricos reduzidos de selênio foram associados à maior gravidade da doença em alguns estudos. Entretanto, os resultados disponíveis ainda são contraditórios, e muitos trabalhos avaliaram o selênio em associação com outros micronutrientes.

Um estudo, por exemplo, avaliou uma combinação contendo:

  • 50 mg de coenzima Q10/dia;
  • 50 mg de vitamina E/dia;
  • 48 µg de selênio/dia.

A combinação apresentou resultados positivos em pacientes com psoríase.

Outro estudo avaliou uma associação muito mais ampla de micronutrientes, incluindo ácido fólico, magnésio, ferro, zinco, cobre, manganês, selênio, cromo, iodo e vitaminas A, D, E, K, C e do complexo B, administrada durante três meses juntamente com metotrexato em baixa dose.

Nesse trabalho, foi observada melhora significativa da gravidade da psoríase.

Entretanto, como os nutrientes foram utilizados em associação, não é possível atribuir o resultado a um único componente.


O que podemos aprender com essas evidências?

Os estudos mostram que a psoríase pode ser abordada sob diferentes perspectivas, incluindo mecanismos relacionados à inflamação, estresse oxidativo, imunidade, microbiota e integridade da pele.

Capsaicina, curcumina, aloe vera, própolis, probióticos, ômega-3, selênio e diferentes micronutrientes apresentam resultados que justificam novas investigações.

Porém, é fundamental observar o nível de evidência de cada composto. Enquanto alguns possuem estudos clínicos, outros ainda apresentam resultados predominantemente experimentais.


Conclusão

A literatura científica apresenta diferentes nutracêuticos e compostos bioativos com potencial para auxiliar no manejo da psoríase, especialmente por suas ações anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras.

Entre os principais estudados estão capsaicina, curcumina, aloe vera, própolis, probióticos, óleo de peixe, selênio, vitamina E e coenzima Q10.

Apesar dos resultados promissores, ainda são necessários estudos clínicos mais robustos para determinar quais compostos apresentam maior eficácia, quais doses são adequadas e quais pacientes podem se beneficiar de cada estratégia.


Relevância para a prática magistral

A psoríase é um excelente exemplo de condição em que a individualização da terapia pode agregar valor à prática magistral.

A diversidade de mecanismos envolvidos permite que o prescritor considere diferentes estratégias complementares, tanto em formulações tópicas quanto em preparações destinadas ao suporte nutricional, de acordo com o perfil e as necessidades de cada paciente.

Para a farmácia de manipulação, esse tema também oferece uma oportunidade de desenvolver materiais técnico-científicos direcionados a dermatologistas, médicos e nutricionistas, apresentando de maneira objetiva as evidências disponíveis para cada insumo.

 

Bibliografia consultada:

Ayasse MT; et al. Role of neuroimmune circuits and pruritus in psoriasis. Experimental Dermatology, 2020.

Zhou T; et al. Curcumin alleviates imiquimod-induced psoriasis in progranulin-knockout mice. Eur J Pharmacol, 2021

El-Gammal A; et al. Is There a Place for Local Natural Treatment of Psoriasis? Open Access Maced J Med Sci. 2018

Lu W; et al. Potential Role of Probiotics in Ameliorating Psoriasis by Modulating Gut Microbiota in Imiquimod-Induced Psoriasis-Like Mice. Nutrients. 2021.

Alesa DI, Alshamrani HM, Alzahrani YA, Alamssi DN, Alzahrani NS, Almohammadi ME. The role of gut microbiome in the pathogenesis of psoriasis and the therapeutic effects of probiotics. J Family Med Prim Care. 2019.

Zuccotti E; et al. Nutritional strategies for psoriasis: current scientific evidence in clinical trials. European Review for Medical and Pharmacological Sciences, 2018.

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