A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Segundo a Associação Brasileira de Endometriose, a condição acomete cerca de 15% das mulheres em idade reprodutiva, geralmente entre 13 e 45 anos, sendo uma importante causa de dor pélvica crônica, infertilidade e redução da qualidade de vida.
Apesar dos avanços no tratamento, as terapias atualmente disponíveis são predominantemente hormonais e sintomáticas, não sendo eficazes para todas as pacientes e podendo apresentar efeitos adversos. Dessa forma, cresce o interesse por compostos capazes de atuar diretamente nos mecanismos biológicos envolvidos na progressão da doença.
Uma revisão sistemática publicada em maio de 2021 na revista Medicinal Research Reviews reuniu as principais estratégias farmacológicas e nutracêuticas que atuam sobre vias moleculares relacionadas à fisiopatologia da endometriose.
Entendendo a fisiopatologia da endometriose
A endometriose é uma doença complexa, envolvendo diversos processos biológicos simultaneamente, entre eles:
- proliferação celular;
- redução da apoptose (morte celular programada);
- alterações na autofagia;
- migração e invasão celular;
- angiogênese;
- fibrose;
- estresse oxidativo;
- inflamação crônica;
- escape do sistema imunológico.
Esses mecanismos favorecem a sobrevivência e o crescimento das lesões endometrióticas, tornando a doença de difícil controle.
Nutracêuticos com potencial terapêutico
Segundo a revisão, diversos compostos naturais apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias capazes de modular vias envolvidas na endometriose.
Os principais nutracêuticos destacados foram:
- Resveratrol
- Epigalocatequina galato (EGCG), presente no chá verde (Camellia sinensis)
- Ginsenosídeos, presentes no ginseng
- Curcumina
- N-acetilcisteína (NAC)
- Ácido cafeico
- Vitamina D3
- Óleo de peixe (ômega-3)
Os autores descrevem que esses compostos apresentam potencial para interferir em diferentes mecanismos da doença, especialmente reduzindo o estresse oxidativo, a inflamação e a formação de novos vasos sanguíneos que sustentam as lesões.
Outros compostos também foram discutidos
Além dos nutracêuticos, a revisão aborda outras estratégias farmacológicas que vêm sendo investigadas para atuar em vias moleculares específicas da endometriose.
Entre elas destacam-se:
- metformina;
- anastrozol;
- melatonina;
- outros agentes moduladores de sinalização celular.
Os autores ressaltam que essas abordagens ainda necessitam de mais estudos para definir seu papel na prática clínica.
Por que esse tema desperta interesse?
Grande parte das pacientes apresenta sintomas persistentes mesmo utilizando tratamento hormonal convencional, além de existirem situações em que o tratamento hormonal é contraindicado ou não é bem tolerado.
Nesse cenário, compostos com atividade antioxidante e anti-inflamatória surgem como potenciais estratégias complementares, principalmente por atuarem em mecanismos biológicos diretamente relacionados ao desenvolvimento e à manutenção da doença.
Conclusão
A revisão publicada na Medicinal Research Reviews reforça que a endometriose envolve múltiplas vias moleculares relacionadas à inflamação, estresse oxidativo, angiogênese e alterações imunológicas. Nutracêuticos como resveratrol, EGCG, curcumina, N-acetilcisteína, vitamina D3 e ômega-3 apresentam resultados promissores em estudos experimentais e clínicos iniciais, indicando potencial como terapia complementar. No entanto, estudos clínicos mais robustos ainda são necessários para definir sua eficácia, doses ideais e aplicação na rotina clínica.
Relevância para a prática magistral
A revisão evidencia o crescente interesse científico por nutracêuticos capazes de modular vias inflamatórias, oxidativas e imunológicas envolvidas na endometriose. Na prática magistral, compostos como resveratrol, curcumina, N-acetilcisteína, vitamina D3, ômega-3 e extratos padronizados de chá verde e ginseng representam opções de interesse para formulações individualizadas como terapia adjuvante, sempre integradas ao tratamento médico.
Bibliografia consultada:
Hung SW; et al. Pharmaceuticals targeting signaling pathways of endometriosis as potential new medical treatment: A review. Medicinal Research Reviews, 2021
