Nutracêuticos podem auxiliar na redução do risco de AVC por atuarem em múltiplos fatores cardiovasculares

Nutracêuticos podem auxiliar na redução do risco de AVC por atuarem em múltiplos fatores cardiovasculares

O acidente vascular cerebral (AVC) continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo. A prevenção depende do controle de diversos fatores de risco, como hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes, resistência à insulina, obesidade, tabagismo e sedentarismo.

Embora medicamentos antiagregantes plaquetários e anticoagulantes sejam amplamente utilizados na prevenção do AVC isquêmico, seu uso pode aumentar o risco de sangramento e de AVC hemorrágico. Por isso, cresce o interesse por estratégias complementares capazes de atuar sobre diferentes mecanismos envolvidos na saúde vascular.

Diversos nutracêuticos apresentam evidências de benefício na modulação da pressão arterial, da função endotelial, da inflamação, da agregação plaquetária e da aterosclerose, podendo contribuir para a redução do risco cardiovascular.


1. Folha de oliveira e azeite de oliva

A Olea europaea é um dos principais componentes da dieta mediterrânea. Suas folhas são ricas em oleuropeína e oleaceína, compostos associados à ação anti-hipertensiva, antioxidante e antiaterosclerótica.

Em um estudo clínico, a suplementação com 1.000 mg/dia de extrato de folha de oliveira reduziu a pressão arterial média de 137/80 mmHg para 126/76 mmHg, além de diminuir os níveis de colesterol.

O azeite de oliva também demonstrou benefícios. Um estudo francês observou que idosos que utilizavam azeite regularmente na alimentação apresentaram 41% menor risco de AVC isquêmico em comparação aos que nunca consumiam azeite.


2. Nattoquinase

A nattoquinase é uma enzima obtida da soja fermentada (natto) com reconhecida atividade fibrinolítica.

Em um estudo clínico, indivíduos hipertensos que receberam 2.000 unidades fibrinolíticas (UF) por dia durante oito semanas apresentaram redução aproximada de:

  • 6 mmHg na pressão arterial sistólica;
  • 3 mmHg na pressão arterial diastólica.

Entre seus mecanismos propostos estão:

  • degradação do fibrinogênio;
  • redução da viscosidade sanguínea;
  • inibição da elevação da angiotensina II.

3. L-carnitina e seus derivados

A L-carnitina participa do metabolismo energético mitocondrial e apresenta potencial efeito neuroprotetor.

Estudos experimentais demonstram que:

  • promove vasodilatação;
  • reduz a ativação plaquetária;
  • melhora a perfusão de tecidos isquêmicos;
  • protege o cérebro em modelos animais de AVC isquêmico.

A acetil-L-carnitina e a propionil-L-carnitina também apresentaram resultados promissores na redução da lesão cerebral experimental.


4. Vimpocetina

Derivada da vincamina, a vimpocetina é utilizada em alguns países no tratamento de doenças cerebrovasculares.

Os estudos experimentais mostram que ela:

  • bloqueia canais de sódio e cálcio;
  • reduz a excitotoxicidade neuronal;
  • melhora o fluxo sanguíneo cerebral;
  • apresenta atividade anti-inflamatória.

Em modelos animais de AVC isquêmico, reduziu significativamente a extensão das lesões cerebrais.


5. Vitamina D

A vitamina D participa da regulação da pressão arterial, da função endotelial e do metabolismo do cálcio.

A deficiência desse nutriente tem sido associada ao aumento do risco cardiovascular.

Estudos observacionais sugerem que indivíduos com níveis séricos acima de 30 ng/mL apresentam menor incidência de infarto e AVC.


6. Vitaminas B6, B12 e ácido fólico

Essas vitaminas participam do metabolismo da homocisteína, cuja elevação constitui fator de risco para doenças cardiovasculares.

Uma análise envolvendo 5.522 participantes mostrou que a suplementação com ácido fólico, vitamina B6 e vitamina B12 reduziu:

  • os níveis plasmáticos de homocisteína;
  • a incidência geral de AVC.

Outra revisão, reunindo 19 estudos, estimou redução aproximada de 12% no risco de AVC com suplementação de vitaminas do complexo B.


7. Ômega-3

Os ácidos graxos EPA e DHA exercem diversos efeitos cardiovasculares benéficos.

Entre eles:

  • redução da pressão arterial;
  • diminuição da agregação plaquetária;
  • melhora da função endotelial;
  • redução dos triglicerídeos;
  • ação anti-inflamatória;
  • melhora da produção de óxido nítrico.

Estudos experimentais também demonstraram menor dano cerebral após AVC isquêmico em animais suplementados com DHA.


8. Alho

O alho possui compostos sulfurados, especialmente a alicina, relacionados à redução da pressão arterial.

Uma revisão de ensaios clínicos mostrou reduções médias de aproximadamente:

  • 16 mmHg na pressão sistólica;
  • 9 mmHg na pressão diastólica.

Os estudos sugerem que cerca de 10.000 mcg de alicina por dia, equivalente a aproximadamente quatro dentes de alho, podem produzir esses efeitos.


9. DHEA

A desidroepiandrosterona (DHEA) é um hormônio esteroide associado à manutenção da função vascular.

Estudos observacionais demonstram que concentrações mais elevadas de DHEA-S em mulheres na pós-menopausa estiveram associadas à ocorrência de AVCs menos graves.


10. Vitamina C

Além da ação antioxidante, a vitamina C melhora a função endotelial e pode potencializar o efeito de medicamentos anti-hipertensivos.

Uma revisão de ensaios clínicos mostrou que a suplementação de 250 mg duas vezes ao dia promoveu redução média de aproximadamente:

  • 7 mmHg na pressão sistólica;
  • 4 mmHg na pressão diastólica.

11. Flavonoides

Os flavonoides presentes em frutas, vegetais, chá e vinho tinto apresentam propriedades antioxidantes e vasoprotetoras.

Estudos epidemiológicos sugerem que maior consumo desses compostos está associado à redução do risco de AVC isquêmico.

Entre eles, o resveratrol demonstrou, em modelos experimentais, aumento do fluxo sanguíneo cerebral e redução das lesões causadas pela isquemia.


12. Rutina

A rutina é um flavonoide encontrado naturalmente no trigo-sarraceno e em diversas frutas.

Seu principal mecanismo descrito consiste na inibição da enzima proteína dissulfeto isomerase (PDI), envolvida na formação de trombos.

Modelos experimentais demonstram redução da formação de coágulos sanguíneos após sua administração.


Conclusão

As evidências científicas sugerem que diversos nutracêuticos podem contribuir para a redução do risco de AVC ao atuar sobre mecanismos relacionados à pressão arterial, função endotelial, inflamação, metabolismo da homocisteína, agregação plaquetária e aterosclerose. Embora muitos resultados sejam promissores, o uso desses compostos deve ser considerado como parte de uma abordagem integrada de prevenção cardiovascular, associada ao controle dos fatores de risco tradicionais.


Relevância para a prática magistral

A prevenção do AVC envolve o controle simultâneo de diversos fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão, inflamação, disfunção endotelial, agregação plaquetária e aterosclerose. Na prática magistral, nutracêuticos como ômega-3, extrato de folha de oliveira, vitaminas do complexo B, vitamina D, vitamina C e alho podem ser individualizados de acordo com o perfil clínico do paciente, sempre como estratégia complementar às medidas de estilo de vida e ao tratamento médico. É importante ressaltar que esses compostos não substituem anti-hipertensivos, antiagregantes ou anticoagulantes quando estes são clinicamente indicados.

 

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