Os parabenos são uma classe de conservantes utilizada há décadas em cosméticos, produtos farmacêuticos e alimentos para impedir o crescimento de fungos, bactérias e leveduras. Entre os mais conhecidos estão metilparabeno, etilparabeno, propilparabeno e butilparabeno.
A eficiência antimicrobiana, a estabilidade e a facilidade de incorporação às formulações fizeram com que esses compostos fossem amplamente utilizados. Entretanto, nos últimos anos, pesquisas passaram a investigar possíveis efeitos relacionados à atividade hormonal, reprodução, alergias e câncer.
Afinal, os parabenos são seguros? E o que as evidências científicas realmente mostram?
Qual a origem dos parabenos?
Os parabenos são ésteres do ácido p-hidroxibenzoico. Alguns deles podem ser encontrados naturalmente em determinados alimentos, mas os utilizados comercialmente são produzidos por síntese química.
Desde a década de 1920, os parabenos vêm sendo utilizados como conservantes devido à sua capacidade de controlar o crescimento de diferentes microrganismos. Sua ampla utilização está relacionada justamente à combinação entre eficácia antimicrobiana, estabilidade e baixa toxicidade aguda observada nas avaliações iniciais.
Quais são os possíveis riscos dos parabenos?
A segurança dos parabenos continua sendo tema de investigação científica.
Uma das principais preocupações está relacionada ao seu potencial de atividade endócrina. Estudos experimentais mostram que alguns parabenos apresentam atividade estrogênica, embora consideravelmente mais fraca do que a do estrogênio produzido naturalmente pelo organismo.
Essa característica levou pesquisadores a investigar possíveis relações entre exposição aos parabenos e:
- alterações hormonais;
- fertilidade e reprodução;
- sensibilização e alergias;
- desenvolvimento de determinados tipos de câncer;
- alterações metabólicas.
Parabenos e câncer de mama: existe relação?
A possível relação entre parabenos e câncer de mama é uma das questões que mais desperta atenção.
Uma minireview publicada em 2022 reuniu evidências sobre o tema e destacou que os parabenos podem interferir em diferentes alvos endócrinos e intracrinos relacionados à carcinogênese mamária. Alguns estudos experimentais demonstraram interação com receptores hormonais e alterações em vias relacionadas à proliferação celular.
Também existem trabalhos que detectaram parabenos em tecidos mamários humanos. Entretanto, a presença dessas substâncias no tecido não demonstra que elas tenham causado o câncer.
A própria revisão de 2022 ressalta que as evidências epidemiológicas que relacionam exposição aos parabenos ao câncer de mama ainda são limitadas e que são necessários estudos adicionais, especialmente considerando a exposição simultânea a diferentes parabenos e outros desreguladores endócrinos.
E quanto às alergias e à irritação?
Outro aspecto investigado é a possibilidade de os parabenos contribuírem para sensibilização cutânea e reações alérgicas.
Esse tipo de reação pode ocorrer com ingredientes cosméticos em geral, e o risco depende da substância, concentração, frequência de exposição e características individuais do usuário.
Revisões sobre segurança dos parabenos também investigam sua absorção pela pele e a presença de formas intactas desses compostos no organismo, justamente para compreender melhor a relevância clínica da exposição repetida.
Qual é o limite de uso?
No Brasil, a RDC nº 528/2021 estabelece a lista de substâncias conservantes permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes e define suas respectivas condições e limites de utilização.
A norma estabelece limites específicos para cada substância. Portanto, não é adequado generalizar um único limite para todos os parabenos, pois as condições dependem do ingrediente e da aplicação.
Como referência internacional, uma avaliação de segurança do Cosmetic Ingredient Review concluiu que 20 dos 21 parabenos avaliados eram seguros nas condições de uso e concentração analisadas, desde que a soma dos parabenos na formulação não ultrapassasse 0,8%; para benzilparabeno, os dados foram considerados insuficientes.
Na prática, a formulação deve sempre respeitar a legislação vigente e as condições específicas estabelecidas para cada ingrediente.
Por que os parabenos ainda são utilizados?
Existe uma razão técnica para a permanência desses conservantes nas formulações.
Os parabenos apresentam:
- amplo espectro de atividade antimicrobiana;
- boa estabilidade;
- facilidade de incorporação;
- eficácia em baixas concentrações;
- compatibilidade com diferentes tipos de formulação.
Além disso, substituir um conservante também exige avaliação de segurança. Um sistema conservante alternativo precisa ser capaz de proteger adequadamente a formulação contra contaminação microbiológica, sem introduzir riscos maiores.
Por isso, a discussão sobre parabenos não deve ser simplesmente dividida entre “seguro” e “perigoso”. É necessário considerar qual parabeno está sendo utilizado, em qual concentração, em qual produto e qual é a exposição total do indivíduo.
O que dizem os órgãos regulatórios?
A posição das autoridades regulatórias ajuda a colocar os resultados científicos em perspectiva.
A FDA informa atualmente que continua avaliando as evidências publicadas e que, até o momento, não possui informações demonstrando que os parabenos, quando utilizados em cosméticos nas condições habituais de uso, produzam efeitos adversos à saúde humana.
No Brasil, a Anvisa mantém os parabenos que constam da RDC nº 528/2021 dentro da lista de conservantes permitidos para cosméticos, respeitando as concentrações e condições estabelecidas pela regulamentação.
Isso não significa que todas as dúvidas científicas estejam encerradas. Pelo contrário: pesquisas recentes continuam investigando possíveis efeitos endócrinos, reprodutivos e ambientais relacionados à exposição crônica.
Afinal, devemos evitar os parabenos?
As evidências atuais não permitem afirmar que os parabenos, quando utilizados dentro dos limites regulatórios, sejam comprovadamente responsáveis por câncer ou outras doenças em seres humanos.
Por outro lado, também existem evidências experimentais suficientes para justificar a continuidade das pesquisas sobre atividade endócrina, exposição cumulativa e efeitos de longo prazo, principalmente considerando que a população pode estar exposta simultaneamente a diferentes parabenos e outros compostos com potencial atividade hormonal.
Assim, a interpretação mais adequada é de cautela científica, e não de alarme.
Conclusão
Os parabenos continuam sendo alguns dos conservantes mais estudados e utilizados em produtos cosméticos e farmacêuticos. Sua eficácia microbiológica e seu histórico de utilização sustentam seu emprego dentro das condições estabelecidas pelos órgãos regulatórios.
Ao mesmo tempo, pesquisas experimentais e revisões recentes continuam investigando possíveis efeitos relacionados à atividade estrogênica, sistema reprodutivo, metabolismo e carcinogênese.
Até o momento, porém, não há evidência clínica suficiente para afirmar que o uso regulamentado de parabenos em cosméticos cause câncer ou outras doenças em seres humanos. A questão permanece em investigação, especialmente no que diz respeito à exposição crônica e combinada a diferentes desreguladores endócrinos.
Relevância para a prática magistral
O tema é especialmente relevante para a farmácia magistral, onde o prescritor pode solicitar formulações sem parabenos por preferência individual, histórico de sensibilização ou escolha de determinados veículos e sistemas conservantes.
Nesse contexto, a possibilidade de personalização é um diferencial importante da manipulação. A farmácia pode trabalhar com diferentes sistemas conservantes e bases, desde que tecnicamente adequados à formulação e compatíveis com sua estabilidade e segurança microbiológica.
Para a comunicação com o prescritor, entretanto, é importante evitar afirmações como “parabenos causam câncer” ou “parabenos são totalmente seguros”. A literatura atual é mais complexa: existem hipóteses e resultados experimentais que justificam investigação, mas não há comprovação de causalidade para câncer ou outras doenças nas condições regulamentadas de uso.
Esse equilíbrio entre evidência científica, segurança, legislação e possibilidade de personalização pode ser um excelente tema para materiais técnico-científicos de visitação médica desenvolvidos pela farmácia.
Bibliografia consultada:
Hager E; Chen J; Zhao L. Minireview: Parabens Exposure and Breast Cancer. Int J Environ Res Public Health. 2022.
Iwama MM; et al. Exposure to paraben and triclosan and allergic diseases in Tokyo: A pilot cross-sectional study. Asia Pac Allergy. 2019
Wei F; et al. Parabens as chemicals of emerging concern in the environment and humans: A review. Science of The Total Environment, 2021.
