O intestino e o cérebro mantêm uma comunicação constante por meio do chamado eixo cérebro-intestino-microbioma, uma rede complexa que envolve vias neurais, imunológicas, endócrinas e metabólicas. Alterações na composição da microbiota intestinal podem interferir nessa comunicação, influenciando a resposta ao estresse e contribuindo para o desenvolvimento de transtornos como depressão, ansiedade e insônia.
Nesse contexto, os probióticos vêm sendo estudados como uma estratégia complementar para promover a saúde mental. Um estudo publicado na revista Nutrients avaliou a eficácia da combinação das cepas Lactobacillus reuteri NK33 e Bifidobacterium adolescentis NK98 na melhora de sintomas subclínicos de depressão, ansiedade e distúrbios do sono.
O eixo cérebro-intestino-microbioma
A microbiota intestinal participa da regulação de diversas funções do organismo por meio da produção de metabólitos, neurotransmissores e moléculas imunomoduladoras.
Quando ocorre um desequilíbrio na microbiota (disbiose), podem surgir alterações em diferentes sistemas fisiológicos, favorecendo:
- aumento da inflamação sistêmica;
- alterações na resposta ao estresse;
- distúrbios do humor;
- ansiedade;
- piora da qualidade do sono.
Por isso, intervenções capazes de modular positivamente a microbiota intestinal têm despertado crescente interesse na área da psiquiatria nutricional.
Como o estudo foi realizado?
O estudo foi:
- randomizado;
- duplo-cego;
- placebo-controlado.
Participaram 156 adultos saudáveis que apresentavam sintomas subclínicos de:
- depressão;
- ansiedade;
- insônia.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
- Probióticos (n = 78):
- Lactobacillus reuteri NK33 (2,0 × 10⁹ UFC);
- Bifidobacterium adolescentis NK98 (0,5 × 10⁹ UFC).
- Placebo (n = 78).
A suplementação foi realizada durante oito semanas.
O que foi avaliado?
Os participantes responderam questionários validados no início do estudo e após quatro e oito semanas de tratamento para avaliar:
- resposta ao estresse;
- sintomas de depressão;
- sintomas de ansiedade;
- qualidade do sono;
- gravidade da insônia.
Além disso, foram coletadas amostras de sangue para análise de biomarcadores inflamatórios antes e após o tratamento.
Principais resultados
Ao final das oito semanas, os participantes que receberam os probióticos apresentaram resultados superiores ao grupo placebo.
Foram observados:
- redução significativa dos sintomas de depressão;
- diminuição dos níveis de ansiedade;
- melhora da qualidade do sono;
- redução da gravidade da insônia.
Redução da inflamação
Nas análises laboratoriais, o grupo suplementado apresentou redução dos níveis séricos de interleucina-6 (IL-6), uma importante citocina pró-inflamatória frequentemente associada à inflamação crônica e a transtornos neuropsiquiátricos.
Esse achado reforça a hipótese de que parte dos benefícios observados pode estar relacionada à modulação da resposta inflamatória.
Como os probióticos podem atuar?
Os pesquisadores sugerem que os benefícios estejam relacionados às alterações promovidas na composição da microbiota intestinal.
Entre as principais modificações observadas destacam-se:
- redução da proporção de bactérias da família Enterobacteriaceae, frequentemente associadas à disbiose;
- aumento de bactérias benéficas pertencentes às famílias:
- Bifidobacteriaceae;
- Lactobacillaceae.
Essas alterações podem favorecer uma comunicação mais equilibrada entre intestino e cérebro, contribuindo para a melhora da saúde mental e do sono.
Conclusão
A suplementação durante oito semanas com Lactobacillus reuteri NK33 e Bifidobacterium adolescentis NK98 promoveu redução dos sintomas de depressão e ansiedade, melhorou a qualidade do sono e diminuiu os níveis de interleucina-6 em adultos com sintomas subclínicos. Os resultados reforçam o papel do eixo cérebro-intestino-microbioma e sugerem que a modulação da microbiota intestinal pode representar uma estratégia complementar promissora para a promoção da saúde mental.
Relevância para a prática magistral
O estudo reforça o crescente interesse pelos chamados psicobióticos, probióticos capazes de influenciar positivamente a comunicação entre intestino e cérebro. Para a prática magistral, esses achados destacam a importância da seleção criteriosa de cepas com respaldo clínico e do desenvolvimento de formulações baseadas em evidências para suporte complementar à saúde mental e à qualidade do sono.
Bibliografia consultada:
Lee HJ; et al. Effects of Probiotic NVP-1704 on Mental Health and Sleep in Healthy Adults: An 8-Week Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial. Nutrients. 2021
