
Nos últimos anos, o papel da microbiota intestinal na saúde mental tem despertado crescente interesse da comunidade científica. A comunicação entre intestino e cérebro, conhecida como eixo intestino-cérebro, vem sendo investigada como um dos mecanismos envolvidos em transtornos como depressão e ansiedade.
Uma revisão científica que reuniu estudos clínicos publicados entre 2003 e 2019 avaliou se a suplementação com prebióticos e probióticos poderia reduzir sintomas de depressão e ansiedade.
Os resultados sugerem que os probióticos, isoladamente ou associados aos prebióticos, podem contribuir para a redução dos sintomas depressivos, embora as evidências ainda sejam consideradas preliminares.
O que é o eixo intestino-cérebro?
O eixo intestino-cérebro corresponde ao sistema de comunicação bidirecional entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso central.
Essa comunicação ocorre por diferentes mecanismos, incluindo:
- nervo vago;
- sistema imunológico;
- metabólitos produzidos pela microbiota;
- neurotransmissores e neuromoduladores.
Alterações no equilíbrio da microbiota intestinal têm sido associadas a diversas condições neurológicas e psiquiátricas, embora muitos mecanismos ainda estejam sendo investigados.
Qual a diferença entre prebióticos e probióticos?
Embora os dois atuem sobre a microbiota intestinal, eles exercem funções diferentes.
Probióticos
São microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, podem contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal.
Podem ser encontrados em:
- suplementos;
- iogurtes;
- alimentos fermentados.
Prebióticos
São componentes alimentares não digeríveis que servem como substrato para o crescimento das bactérias benéficas presentes no intestino.
Seu objetivo é favorecer o desenvolvimento de uma microbiota saudável.
Como a revisão foi realizada?
Os pesquisadores analisaram estudos publicados entre 2003 e 2019.
Foram incluídos apenas trabalhos que avaliavam:
- adultos com diagnóstico clínico de depressão ou ansiedade;
- suplementação com prebióticos, probióticos ou ambos;
- avaliação dos sintomas de saúde mental.
Ao final, sete estudos preencheram os critérios de inclusão.
O que os pesquisadores encontraram?
Apesar das diferenças metodológicas entre os estudos, a revisão observou um padrão consistente.
Os principais achados foram:
- probióticos isolados reduziram sintomas de depressão;
- associação entre prebióticos e probióticos também apresentou benefícios;
- prebióticos isoladamente não produziram melhora significativa;
- não foram encontradas evidências consistentes de melhora dos sintomas de ansiedade.
Quais cepas foram utilizadas?
Os estudos analisaram 12 cepas probióticas, pertencentes principalmente aos gêneros:
- Lactobacillus
- Bifidobacterium
No conjunto das pesquisas, 11 das 12 cepas estiveram associadas à melhora de parâmetros relacionados à depressão, isoladamente ou em combinação.
A cepa Lactiplantibacillus plantarum 299v* (anteriormente Lactobacillus plantarum 299v) não demonstrou melhora significativa dos escores de depressão, embora tenha apresentado efeitos positivos sobre testes cognitivos.
As doses utilizadas variaram entre 2 e 20 bilhões de UFC (Unidades Formadoras de Colônias) por dia.
E quanto à ansiedade?
Ao contrário do observado para depressão, os estudos não demonstraram benefício estatisticamente significativo dos prebióticos ou probióticos na redução dos sintomas de ansiedade.
Os autores ressaltam que novos estudos poderão esclarecer melhor essa relação.
Quais são as limitações da revisão?
Os próprios pesquisadores destacam algumas limitações importantes.
Entre elas:
- pequeno número de estudos disponíveis;
- amostras reduzidas;
- curto período de acompanhamento;
- diferentes cepas probióticas utilizadas;
- diferenças nas doses e protocolos.
Esses fatores dificultam comparações diretas e impedem conclusões definitivas.
O que esses resultados significam?
A revisão sugere que determinadas cepas probióticas podem representar uma estratégia complementar para melhorar sintomas depressivos, possivelmente por meio da modulação da microbiota intestinal e da comunicação entre intestino e cérebro.
Entretanto, os autores enfatizam que ainda são necessários estudos maiores, mais longos e metodologicamente padronizados antes que recomendações clínicas possam ser estabelecidas.
Conclusão
A revisão científica indica que probióticos, utilizados isoladamente ou em associação com prebióticos, podem contribuir para a redução dos sintomas de depressão em adultos. No entanto, não foram observadas evidências consistentes de benefício para ansiedade, e os resultados devem ser interpretados com cautela devido às limitações dos estudos disponíveis. Novas pesquisas serão fundamentais para definir quais cepas, doses e protocolos apresentam maior eficácia clínica.
Relevância para a prática magistral
O crescente interesse pelo eixo intestino-cérebro amplia as possibilidades de atuação da farmácia magistral na individualização de estratégias voltadas à saúde intestinal e ao bem-estar. Entretanto, é importante destacar que os efeitos observados dependem da cepa probiótica utilizada, da dose, da duração da suplementação e do perfil clínico do paciente. Assim, formulações contendo probióticos devem ser elaboradas com base em evidências específicas para cada cepa e sempre como parte de uma abordagem integrada, não substituindo os tratamentos convencionais para transtornos depressivos.
Referências consultadas:
Noonan S, et al. Food & mood: a review of supplementary prebiotic and probiotic interventions in the treatment of anxiety and depression in adults. BMJ Nutrition, Prevention & Health, 2020.