Dieta que simula o jejum associada à vitamina C mostra potencial contra câncer colorretal em estudo experimental

Dieta que simula o jejum associada à vitamina C mostra potencial contra câncer colorretal em estudo experimental

A busca por estratégias terapêuticas menos tóxicas para o tratamento do câncer tem impulsionado pesquisas envolvendo nutrientes, compostos bioativos e intervenções nutricionais. Entre elas, a dieta que simula o jejum (fasting-mimicking diet – FMD) vem despertando interesse por reproduzir parte dos efeitos metabólicos do jejum prolongado sem a necessidade de suspensão completa da alimentação.

Um estudo publicado na revista Nature Communications avaliou a combinação dessa estratégia nutricional com vitamina C em doses farmacológicas, observando resultados promissores em modelos experimentais de câncer colorretal.

Importante: Os resultados descritos referem-se principalmente a experimentos realizados em culturas celulares e modelos animais. Ainda não demonstram eficácia clínica em pacientes.


O que é a dieta que simula o jejum?

A dieta que simula o jejum (FMD) consiste em um protocolo alimentar de curta duração, com:

  • baixa ingestão calórica;
  • redução de proteínas;
  • baixo teor de açúcares;
  • predominância de alimentos de origem vegetal.

Seu objetivo é induzir alterações metabólicas semelhantes às observadas durante o jejum, preservando maior segurança e adesão ao tratamento.


Como o estudo foi realizado?

Pesquisadores da University of Southern California (USC) e do IFOM Cancer Institute, na Itália, avaliaram a associação entre:

  • dieta que simula o jejum;
  • vitamina C em doses farmacológicas.

Os experimentos foram conduzidos inicialmente em culturas celulares e posteriormente em modelos animais de câncer colorretal.

Os pesquisadores compararam:

  • vitamina C isoladamente;
  • dieta que simula o jejum isoladamente;
  • combinação das duas estratégias.

Quais foram os resultados?

Quando utilizadas separadamente, tanto a vitamina C quanto a dieta que simula o jejum apresentaram apenas redução parcial do crescimento das células tumorais.

Entretanto, a combinação das duas intervenções produziu um efeito muito mais intenso.

Nos experimentos realizados:

  • houve redução significativa da progressão tumoral;
  • em alguns modelos animais foi observada regressão do tumor;
  • nas culturas celulares, a combinação eliminou grande parte das células tumorais avaliadas.

O papel da mutação no gene KRAS

O efeito foi particularmente evidente em tumores que apresentavam mutações no gene KRAS.

As mutações nesse gene estão entre as alterações genéticas mais frequentes no câncer colorretal e costumam estar associadas à resistência a diferentes tratamentos oncológicos.

Segundo os autores, essa característica torna a descoberta especialmente relevante para futuras pesquisas.


Como a vitamina C pode atuar?

Os pesquisadores identificaram que a vitamina C, utilizada isoladamente, induzia um aumento da produção de ferritina, proteína responsável pelo armazenamento de ferro.

Esse aumento parecia funcionar como um mecanismo de defesa das células tumorais.

Quando a dieta que simula o jejum reduziu essa proteção celular, o efeito citotóxico da vitamina C tornou-se significativamente maior.

Os autores também observaram participação de mecanismos relacionados ao:

  • metabolismo do ferro;
  • estresse oxidativo;
  • expressão da enzima heme oxigenase-1 (HO-1).

O que esses resultados significam?

Segundo os pesquisadores, a combinação entre dieta que simula o jejum e vitamina C pode representar uma estratégia promissora para potencializar terapias oncológicas.

Entretanto, os autores ressaltam que os resultados ainda precisam ser confirmados em ensaios clínicos com seres humanos.

Na época da publicação, diversos estudos clínicos já estavam em andamento para avaliar a segurança e a eficácia dessa abordagem em diferentes tipos de câncer.


A vitamina C pode ser utilizada como tratamento para o câncer?

Até o momento, não existem evidências suficientes para recomendar vitamina C ou dietas que simulem o jejum como tratamento isolado para o câncer.

Essas estratégias permanecem em investigação e, quando utilizadas, devem fazer parte de protocolos de pesquisa ou ser avaliadas pela equipe médica responsável pelo tratamento oncológico.

A abordagem terapêutica do câncer continua baseada em tratamentos com eficácia comprovada, como cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, conforme o tipo e o estágio da doença.


Conclusão

O estudo publicado na Nature Communications demonstrou que a associação entre uma dieta que simula o jejum e vitamina C em doses farmacológicas apresentou atividade antitumoral em modelos experimentais de câncer colorretal, especialmente em tumores com mutação no gene KRAS. Embora os resultados sejam promissores, eles ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos antes que essa estratégia possa ser incorporada à prática oncológica.


Relevância para a prática magistral

A crescente investigação sobre intervenções nutricionais e compostos bioativos no contexto oncológico reforça a importância da atuação integrada entre médicos, nutricionistas e farmacêuticos. Para a farmácia magistral, esses estudos ampliam o conhecimento sobre mecanismos metabólicos envolvidos na progressão tumoral, mas não justificam, por si só, a prescrição ou manipulação de formulações com finalidade antineoplásica fora das evidências clínicas estabelecidas.

 

 

Bibliografia consultada

Maira Di Tano, Franca Raucci, Claudio Vernieri, Irene Caffa, Roberta Buono, Maura Fanti, Sebastian Brandhorst, Giuseppe Curigliano, Alessio Nencioni, Filippo de Braud, Valter D. Longo. Synergistic effect of fasting-mimicking diet and vitamin C against KRAS mutated cancersNature Communications, 2020.

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