Goma de mascar com xilitol pode reduzir o risco de parto prematuro e melhorar a saúde periodontal

Goma de mascar com xilitol pode reduzir o risco de parto prematuro e melhorar a saúde periodontal

A saúde bucal durante a gestação pode ter impactos que vão muito além dos dentes e gengivas. Estudos observacionais já identificaram uma associação entre doença periodontal materna e maior risco de parto prematuro, embora intervenções odontológicas convencionais realizadas durante a gravidez não tenham demonstrado, de forma consistente, capacidade de prevenir esse desfecho.

Diante disso, pesquisadores investigaram se uma estratégia simples, de baixo custo e fácil aplicação — o uso de goma de mascar contendo xilitol — poderia melhorar a saúde periodontal e, consequentemente, reduzir a ocorrência de partos prematuros.

O estudo foi realizado em oito centros de saúde na região de Lilongwe, no Malawi, uma região caracterizada por elevada incidência de parto prematuro. Ao todo, 10.069 mulheres participaram do estudo, sendo acompanhadas desde o período periconcepcional ou início da gestação. As participantes receberam orientações sobre gravidez, prevenção do parto prematuro e cuidados com a saúde bucal. Além disso, um dos grupos recebeu goma de mascar contendo xilitol para utilização duas vezes ao dia.


Menos partos prematuros entre as mulheres que utilizaram xilitol

Entre as 4.349 gestações analisadas no grupo que recebeu a goma com xilitol, 549 (12,6%) resultaram em parto prematuro, definido como nascimento antes de 37 semanas.

No grupo controle, foram registrados 878 partos prematuros entre 5.321 gestações (16,5%).

A diferença correspondeu a uma redução relativa de 24% no risco de parto prematuro (RR 0,76; IC95% 0,57–0,99).

Outro resultado relevante foi observado em relação ao baixo peso ao nascer. A ocorrência foi de 8,9% no grupo xilitol contra 12,9% no grupo controle, correspondendo a uma redução relativa de aproximadamente 30%.

Os pesquisadores também observaram menor ocorrência de óbitos neonatais no grupo que utilizou a goma.


O que aconteceu com a saúde periodontal?

A hipótese do trabalho estava diretamente relacionada à saúde bucal.

Uma parcela das participantes realizou avaliações odontológicas no início e durante o acompanhamento. As mulheres que utilizaram a goma de mascar apresentaram menor ocorrência de doença periodontal e menor inflamação gengival em comparação com aquelas do grupo controle.

O resultado é particularmente interessante porque estabelece uma possível conexão entre uma intervenção voltada à microbiota e à saúde periodontal e um desfecho obstétrico importante.

O xilitol já é conhecido por apresentar propriedades que podem interferir na microbiota oral e reduzir a presença de microrganismos associados à cárie e à doença periodontal. Nesse contexto, a melhora da saúde periodontal pode representar um dos mecanismos pelos quais a intervenção estaria relacionada à redução dos partos prematuros.

Entretanto, é importante destacar que o estudo demonstra uma associação entre a intervenção e a redução dos desfechos, não permitindo afirmar que a melhora periodontal seja definitivamente o mecanismo responsável pela redução dos partos prematuros.


Uma intervenção simples, mas com resultados relevantes

Um dos aspectos mais interessantes do estudo é justamente a simplicidade da estratégia.

Em uma população com limitações de acesso a serviços odontológicos e recursos de saúde, os pesquisadores avaliaram uma intervenção que poderia ser facilmente incorporada à rotina das gestantes.

O estudo também mostrou que a utilização da goma contendo xilitol foi bem tolerada, sem eventos adversos maternos atribuídos à intervenção.

Apesar dos resultados promissores, os próprios achados precisam ser interpretados dentro do contexto em que foram obtidos. O estudo foi realizado em uma região específica do Malawi, com características epidemiológicas e de acesso à saúde próprias. Portanto, ainda são necessários estudos em outras populações e contextos para determinar se os mesmos benefícios serão observados de forma consistente.


O que o estudo representa para a prática magistral?

O trabalho chama atenção para uma possibilidade interessante de desenvolvimento de formas farmacêuticas e produtos voltados à saúde bucal, especialmente aqueles que associam praticidade, adesão e atuação local.

A goma de mascar pode funcionar como um veículo para diferentes ativos de interesse odontológico, permitindo explorar estratégias individualizadas de composição e concentração conforme a finalidade pretendida e as características do produto.

Para a farmácia magistral, estudos como esse também reforçam a importância de acompanhar novas pesquisas envolvendo xilitol, microbiota oral, saúde periodontal e gestação, identificando oportunidades de desenvolvimento de soluções que possam complementar as estratégias convencionais de cuidado.

É fundamental, entretanto, que qualquer aplicação clínica seja baseada em evidências disponíveis, respeitando as indicações, concentrações, segurança e regulamentação aplicáveis, especialmente quando o público envolve gestantes.


Conclusão

Um grande estudo realizado com mais de 10 mil gestantes no Malawi mostrou que o uso de goma de mascar contendo xilitol duas vezes ao dia, iniciado no período periconcepcional e mantido durante a gestação, esteve associado a uma redução de 24% nos partos prematuros e de aproximadamente 30% nos nascimentos com baixo peso.

A intervenção também esteve associada à melhora da saúde periodontal, reforçando a hipótese de que estratégias direcionadas à saúde bucal durante a gestação podem ter repercussões sistêmicas.

Embora os resultados sejam promissores, eles não significam que o xilitol possa ser considerado, isoladamente, um tratamento ou método comprovado de prevenção do parto prematuro. São necessários novos estudos para confirmar esses resultados em diferentes populações e esclarecer os mecanismos envolvidos.


Relevância para a prática magistral

O estudo demonstra como uma forma farmacêutica simples e de boa aceitação, como a goma de mascar, pode ser utilizada como veículo para uma estratégia direcionada à saúde bucal.

Para a farmácia de manipulação, isso representa uma oportunidade de explorar formas farmacêuticas diferenciadas para odontologia, desenvolvendo soluções personalizadas para diferentes necessidades clínicas e favorecendo a adesão do paciente.

Acompanhar estudos envolvendo xilitol e outros ativos relacionados à microbiota oral permite que a farmácia esteja preparada para dialogar com o prescritor e apresentar alternativas farmacotécnicas fundamentadas em evidências.

 

Bibliografa consultada:

Aagaard KM; et a. LB 1: PPaX: Ensaio randomizado em cluster de goma de mascar xilitol na prevenção do parto prematuro no Malawi. Journal of Obstetrics & Gynecology, 2022

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