A metformina é um dos medicamentos mais utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e, nos últimos anos, também tem despertado interesse na oncologia devido aos seus possíveis efeitos sobre o crescimento tumoral. Um estudo publicado em 2021 na revista Annals of Oncology observou que mulheres com diabetes tipo 2 tratadas com metformina apresentaram menor incidência de câncer de mama receptor de estrogênio positivo (ER+), o subtipo mais frequente da doença.
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que os efeitos parecem variar conforme o subtipo tumoral e ainda necessitam de confirmação em ensaios clínicos.
Metformina foi associada à redução do câncer de mama ER+
O estudo acompanhou mais de 44 mil mulheres nos Estados Unidos durante um período médio de aproximadamente nove anos.
Ao analisar a incidência dos diferentes subtipos de câncer de mama, os pesquisadores observaram que mulheres com diabetes tipo 2 que utilizavam metformina apresentaram menor incidência de câncer de mama receptor de estrogênio positivo (ER+), o subtipo responsável pela maior parte dos diagnósticos da doença.
Esse resultado reforça a hipótese de que a metformina possa exercer efeitos além do controle glicêmico, influenciando mecanismos relacionados ao crescimento celular e ao metabolismo tumoral.
O efeito não foi observado em todos os subtipos
Apesar dos resultados favoráveis para o câncer de mama ER+, o mesmo comportamento não foi observado para outros subtipos.
Os pesquisadores identificaram taxas mais elevadas de:
- câncer de mama receptor de estrogênio negativo (ER−);
- câncer de mama triplo negativo.
Entretanto, o número de casos desses subtipos foi relativamente pequeno, impedindo conclusões definitivas sobre essa associação.
Diabetes tipo 2 continua sendo um fator de risco
O estudo também reforça uma associação já descrita na literatura: mulheres com diabetes tipo 2 apresentam maior risco de desenvolver câncer de mama quando comparadas à população sem diabetes.
Dentro desse contexto, os autores sugerem que a metformina pode exercer um efeito protetor específico sobre o subtipo ER+, mas não necessariamente sobre todos os tipos de câncer mamário.
Estudos clínicos buscam confirmar esse benefício
Embora o trabalho tenha sido conduzido com uma grande população e acompanhamento prolongado, trata-se de um estudo observacional de coorte, o que impede estabelecer uma relação de causa e efeito.
Na época da publicação, encontrava-se em andamento um importante ensaio clínico de fase III, envolvendo mais de 3.500 mulheres com câncer de mama inicial receptor hormonal positivo, que foram randomizadas para receber:
- metformina associada ao tratamento padrão;
- placebo associado ao tratamento padrão.
Esse estudo foi desenvolvido justamente para esclarecer se a metformina pode trazer benefícios adicionais no tratamento do câncer de mama hormônio-dependente.
Conclusão
Um estudo prospectivo publicado na Annals of Oncology observou que mulheres com diabetes tipo 2 tratadas com metformina apresentaram menor incidência de câncer de mama receptor de estrogênio positivo (ER+), o subtipo mais comum da doença. Entretanto, esse possível efeito protetor não foi observado para outros subtipos de câncer de mama. Os resultados reforçam o potencial da metformina como alvo de investigação em oncologia, mas estudos clínicos continuam sendo necessários para confirmar seu papel na prevenção e no tratamento da doença.
Relevância para a prática magistral
O crescente número de estudos envolvendo a metformina demonstra o interesse da comunidade científica em compreender seus possíveis efeitos além do controle da glicemia. Embora seu uso permaneça indicado para o tratamento do diabetes tipo 2, pesquisas como esta ampliam a discussão sobre o reposicionamento de medicamentos já consagrados para novas aplicações terapêuticas, incluindo a oncologia.
Biobliografia consultada:
Park YMM; et al. A prospective study of type 2 diabetes, metformin use, and risk of breast cancer. Annals of Oncology, 2021.
