Uso prolongado de antibióticos na meia-idade pode estar associado ao declínio cognitivo

Uso prolongado de antibióticos na meia-idade pode estar associado ao declínio cognitivo

O uso de antibióticos é fundamental para o tratamento de diversas infecções bacterianas. Entretanto, além de atuarem sobre os microrganismos responsáveis pelas infecções, esses medicamentos também podem modificar a composição da microbiota intestinal.

Um estudo publicado na revista PLOS ONE investigou se o uso prolongado de antibióticos durante a meia-idade poderia estar relacionado a alterações cognitivas observadas anos mais tarde.


Estudo acompanhou mais de 14 mil mulheres

Os pesquisadores analisaram dados de aproximadamente 14.000 enfermeiras de meia-idade, comparando o uso de antibióticos relatado pelas participantes com os resultados de testes neuropsicológicos realizados sete anos depois.

As participantes foram avaliadas em diferentes aspectos da função cognitiva, incluindo:

  • memória;
  • aprendizado;
  • atenção;
  • velocidade psicomotora.

Os resultados mostraram que as mulheres que utilizaram antibióticos durante pelo menos dois meses ao longo de um período de quatro anos apresentaram escores mais baixos em algumas dessas avaliações cognitivas.


O papel da microbiota intestinal

Os pesquisadores não descartaram a possibilidade de que os antibióticos possam exercer efeitos diretos sobre o cérebro. Entretanto, uma das principais hipóteses levantadas é que a associação observada esteja relacionada à alteração da microbiota intestinal provocada pelo uso prolongado desses medicamentos.

Essa possibilidade ganha relevância diante de estudos experimentais que demonstram uma relação entre antibióticos, alterações na microbiota e função cognitiva.

Em modelos animais, por exemplo, antibióticos como a ampicilina, embora não sejam detectados no cérebro, foram associados à disbiose intestinal e comprometimento cognitivo.


Microbiota e cérebro estão conectados

O intestino e o cérebro apresentam uma comunicação bidirecional conhecida como eixo intestino-cérebro.

Os microrganismos intestinais podem influenciar o sistema nervoso por diferentes mecanismos, incluindo a interação com o sistema imunológico, a produção de metabólitos e neurotransmissores e a comunicação por meio do nervo vago.

Dessa forma, alterações importantes na composição da microbiota poderiam favorecer processos inflamatórios capazes de repercutir sobre o funcionamento cerebral.

Pesquisas anteriores também identificaram alterações na microbiota intestinal de pessoas com doença de Alzheimer, incluindo diferenças na abundância de determinados grupos bacterianos, como maior presença de bactérias do gênero Bacteroides e menor presença de Bifidobacterium.

Alterações na diversidade e riqueza da microbiota também foram descritas em outras condições neurológicas e sistêmicas.


Antibióticos não devem ser evitados indiscriminadamente

Apesar dos resultados chamarem atenção, é importante interpretar o estudo com cautela.

Trata-se de uma associação observacional, portanto não é possível afirmar que o uso prolongado de antibióticos tenha causado o declínio cognitivo.

Além disso, pessoas que necessitam de tratamentos antibióticos prolongados podem apresentar outras condições de saúde que, por si só, poderiam estar relacionadas às alterações cognitivas observadas.

Os próprios autores destacam que ainda é prematuro recomendar que as pessoas evitem antibióticos por medo de desenvolver demência.

Por outro lado, o trabalho reforça a importância de evitar o uso desnecessário desses medicamentos, especialmente diante do impacto que a exposição repetida a antibióticos pode exercer sobre a microbiota.


Conclusão

O estudo sugere que o uso prolongado de antibióticos durante a meia-idade pode estar associado a alterações cognitivas observadas anos mais tarde, incluindo pior desempenho em testes de memória, aprendizado, atenção e velocidade psicomotora.

Uma das hipóteses para explicar essa associação envolve a disrupção da microbiota intestinal e suas possíveis consequências sobre o eixo intestino-cérebro e os processos inflamatórios.

Entretanto, os resultados não comprovam que os antibióticos causem declínio cognitivo ou demência. São necessários estudos adicionais para determinar se existe uma relação causal e compreender quais alterações na microbiota poderiam estar envolvidas.

O principal alerta, portanto, não é evitar antibióticos quando eles são necessários, mas reforçar a importância do uso racional desses medicamentos e da redução de prescrições desnecessárias.


Relevância para a prática magistral

O estudo apresenta uma conexão interessante entre antibióticos, microbiota intestinal e saúde cerebral, tema que pode ser explorado pela prática magistral dentro do conceito de eixo intestino-cérebro.

Para a farmácia magistral, o conteúdo pode ser especialmente relevante na comunicação com neurologistas, psiquiatras, gastroenterologistas e nutricionistas, estimulando a discussão sobre as consequências da disbiose e o papel da microbiota na saúde cognitiva.

 

Bibliografia consultada:

Mehta RS; et al. Association of midlife antibiotic use with subsequent cognitive function in women. Plos One, 2022.

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