Antipsicóticos na gravidez: o que os grandes estudos mostram sobre malformações?

Antipsicóticos na gravidez: o que os grandes estudos mostram sobre malformações?

Os transtornos psiquiátricos são frequentes entre mulheres em idade reprodutiva e, em alguns casos, é necessário manter o tratamento medicamentoso durante a gravidez.

Essa situação gera uma questão importante: a exposição a medicamentos antipsicóticos durante a gestação aumenta o risco de malformações congênitas?

Para investigar essa questão, pesquisadores analisaram dados de milhões de gestações provenientes de registros nacionais de saúde de cinco países nórdicos — Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia — e dos Estados Unidos.


Um estudo com milhões de gestações

A pesquisa incluiu aproximadamente:

  • 6,4 milhões de mães não expostas a antipsicóticos;
  • 21.751 mães expostas a antipsicóticos atípicos;
  • 6.371 mães expostas a antipsicóticos típicos.

A exposição foi analisada especificamente durante o primeiro trimestre da gestação, período crítico para o desenvolvimento dos órgãos do feto.

Entre os antipsicóticos atípicos mais utilizados estavam quetiapina, aripiprazol, olanzapina e risperidona.

Entre os típicos, destacaram-se clorpromazina, dixirazina e perfenazina.


E quais foram os resultados?

A frequência de qualquer malformação congênita foi:

  • 2,7% entre as mulheres não expostas;
  • 4,3% entre as expostas a antipsicóticos atípicos;
  • 3,1% entre as expostas a antipsicóticos típicos.

Após os ajustes estatísticos realizados pelos pesquisadores, os riscos relativos ficaram próximos de 1, indicando que, de modo geral, não foi identificada uma associação importante entre a exposição aos antipsicóticos estudados e o risco global de malformações congênitas.


Houve alguma exceção?

Sim.

Os pesquisadores identificaram um possível sinal de associação entre o uso de olanzapina e fissuras orais.

Esse resultado, entretanto, precisa ser interpretado com cautela e confirmado por pesquisas adicionais, especialmente porque estudos observacionais desse tipo estão sujeitos a fatores de confusão.


O que podemos concluir?

Os resultados são tranquilizadores, especialmente considerando o tamanho da população analisada.

A pesquisa não encontrou evidências de um aumento substancial no risco global de malformações congênitas associado à exposição a antipsicóticos no primeiro trimestre.

Isso, porém, não significa que todos os medicamentos sejam isentos de risco ou que o tratamento possa ser interrompido ou iniciado sem avaliação médica.

Em mulheres grávidas ou que pretendem engravidar, a decisão sobre manter, substituir ou suspender um antipsicótico deve considerar conjuntamente os riscos da exposição ao medicamento e os riscos da própria doença psiquiátrica não tratada.

Os autores destacam a necessidade de monitoramento contínuo e de estudos confirmatórios para esclarecer possíveis sinais de segurança identificados anteriormente.


Relevância para a prática magistral

O estudo é particularmente relevante para a prática magistral por reforçar a necessidade de individualização da farmacoterapia durante a gestação.

Embora os resultados sejam tranquilizadores quanto ao risco global de malformações, a manipulação não deve ser utilizada para modificar ou substituir um tratamento antipsicótico durante a gravidez sem avaliação médica.

Para o farmacêutico magistral, conhecer as evidências de segurança dos medicamentos utilizados na gestação é fundamental para avaliar formulações, excipientes, doses e necessidades específicas da paciente, sempre respeitando a prescrição e a avaliação do profissional responsável.

Na gestação, segurança não significa ausência absoluta de risco. Significa avaliar cuidadosamente o equilíbrio entre benefício, risco e necessidade de tratamento para cada paciente.

 

Bibliografia consultada:

Huybrechts KF; et al. Association of In Utero Antipsychotic Medication Exposure With Risk of Congenital Malformations in Nordic Countries and the US. JAMA Psychiatry, 2022.

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