O aspartame é um dos adoçantes artificiais mais utilizados em alimentos, bebidas e também em algumas formulações manipuladas. Seu poder adoçante é aproximadamente 200 vezes maior que o da sacarose, permitindo sua utilização em pequenas quantidades.
Mas sua segurança continua sendo tema de discussão científica.
Parte das pesquisas levanta preocupações relacionadas aos produtos formados durante sua metabolização, enquanto outras apontam que as quantidades produzidas são pequenas e, dentro dos limites de ingestão estabelecidos, não representariam um risco significativo.
Agora, um novo estudo em animais trouxe uma questão ainda mais intrigante: o consumo de aspartame poderia provocar alterações relacionadas à ansiedade e essas mudanças poderiam permanecer por gerações?
O que os pesquisadores descobriram?
Em experimentos realizados com animais, os pesquisadores observaram que a exposição ao aspartame esteve associada ao desenvolvimento de comportamentos semelhantes à ansiedade.
Além das alterações comportamentais, foram identificadas mudanças epigenéticas na amígdala, região cerebral envolvida na resposta emocional, no processamento do medo e da ansiedade.
Mas o achado mais surpreendente veio depois.
Segundo os pesquisadores, algumas dessas alterações permaneceram nas duas gerações subsequentes, mesmo sem a exposição direta desses descendentes ao aspartame.
O que significa uma alteração epigenética?
A epigenética envolve mecanismos capazes de modificar a forma como determinados genes são ativados ou silenciados sem alterar a sequência do DNA.
Essas modificações podem ser influenciadas por fatores ambientais e comportamentais, incluindo alimentação e exposição a determinadas substâncias.
Por isso, a possibilidade de uma exposição ambiental provocar alterações que permaneçam em gerações posteriores desperta grande interesse científico.
Isso significa que o aspartame causa ansiedade em humanos?
Ainda não.
Esse ponto é fundamental.
Os resultados descritos foram obtidos em modelos animais e não permitem afirmar que o consumo de aspartame provoque ansiedade ou alterações epigenéticas transgeracionais em seres humanos.
Também não é possível determinar, a partir desse estudo, se os efeitos observados ocorreriam nas mesmas doses ou condições de exposição em humanos.
São necessárias novas pesquisas para verificar:
- se o mecanismo também ocorre em humanos;
- qual seria a intensidade desses efeitos;
- qual dose estaria associada às alterações;
- quais mecanismos epigenéticos estão envolvidos;
- e se as alterações realmente podem ser transmitidas entre gerações.
E a prática magistral?
O estudo é particularmente interessante para a Farmácia Magistral, considerando que o aspartame pode ser utilizado como edulcorante em determinadas formulações.
Entretanto, um estudo experimental em animais não é suficiente para recomendar a retirada do aspartame das formulações ou afirmar que seu uso cause efeitos neuropsiquiátricos em humanos.
O principal alerta trazido pela pesquisa é a necessidade de continuar investigando os efeitos de exposições alimentares sobre mecanismos epigenéticos e neurológicos.
Para o farmacêutico magistral, acompanhar essas pesquisas é importante para tomar decisões cada vez mais conscientes sobre edulcorantes, excipientes e alternativas de formulação, especialmente quando surgem novas evidências de segurança.
Um adoçante pode parecer uma pequena parte da formulação. Mas a ciência continua mostrando que até pequenas exposições podem levantar grandes perguntas.
Bibliografia consultada:
Jones SK; et al. Transgenerational transmission of aspartame-induced anxiety and changes in glutamate-GABA signaling and gene expression in the amygdala. PNAS, 2022.
