Uma nova revisão sistemática avaliou se a proporção entre THC (tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol) presente nos produtos à base de cannabis poderia influenciar seu efeito analgésico.
Os resultados sugerem que produtos com proporções mais elevadas de THC em relação ao CBD podem proporcionar um alívio moderado da dor. Entretanto, esse possível benefício deve ser avaliado considerando também a maior ocorrência de efeitos adversos, especialmente tontura, sedação e náusea.
THC e CBD: por que a proporção importa?
O THC e o CBD são os principais canabinoides encontrados na cannabis e apresentam características farmacológicas distintas.
Em estudos pré-clínicos, o THC e compostos relacionados demonstraram propriedades analgésicas. Entretanto, seus efeitos psicoativos e potencial de dependência podem limitar sua utilização como analgésico.
O CBD e outros canabinoides também apresentam possíveis propriedades analgésicas e anti-inflamatórias, mas não são considerados psicoativos ou viciantes da mesma maneira que o THC.
Diante dessas diferenças, os pesquisadores levantaram a hipótese de que o efeito sobre a dor poderia variar conforme a proporção de THC em relação ao CBD presente na formulação.
Como os produtos foram classificados?
Os pesquisadores dividiram os produtos avaliados em cinco categorias:
- Alta proporção THC:CBD: pelo menos 2:1;
- Proporção comparável THC:CBD: menor que 2:1 e maior que 1:2;
- Baixa proporção THC:CBD: igual ou inferior a 1:2;
- Produtos de cannabis de planta inteira;
- Outros canabinoides.
Essa classificação permitiu avaliar se diferentes concentrações relativas de THC e CBD estavam associadas a diferentes respostas analgésicas.
O que mostrou a revisão?
A análise final incluiu:
- 18 estudos randomizados controlados por placebo, envolvendo 1.740 participantes;
- 7 estudos de coorte, envolvendo 13.095 participantes.
A maioria dos estudos apresentou duração relativamente curta, entre 1 e 6 meses.
A intensidade da dor foi avaliada em uma escala de 0 a 10. Os pesquisadores consideraram:
- 0,5–1 ponto: pequeno efeito;
- 1–2 pontos: efeito moderado;
- mais de 2 pontos: grande efeito.
Os resultados mostraram que:
Alta proporção de THC:CBD
Os produtos com THC:CBD ≥2:1 foram associados a um efeito moderado sobre a dor.
Proporção comparável de THC:CBD
Produtos com proporções de THC e CBD mais próximas apresentaram apenas um pequeno efeito analgésico.
Assim, os resultados sugerem que a quantidade relativa de THC pode ser um fator importante para determinar a magnitude do efeito analgésico observado.
O efeito é semelhante ao dos tratamentos convencionais?
Segundo os autores, as taxas de resposta ao tratamento observadas com os produtos à base de cannabis estavam em uma faixa semelhante à descrita para tratamentos convencionais, incluindo opioides e alguns antidepressivos utilizados no manejo da dor.
Entretanto, os pesquisadores destacam que a quantidade de evidências disponíveis para os produtos à base de cannabis é menor, especialmente quando comparada à literatura existente para tratamentos convencionais.
Portanto, não é possível concluir simplesmente que cannabis e opioides apresentam a mesma eficácia ou segurança.
E quanto aos efeitos adversos?
O possível maior efeito analgésico dos produtos com proporções elevadas de THC:CBD veio acompanhado de uma preocupação importante relacionada à tolerabilidade.
Esses produtos foram associados a risco moderado a alto de:
- tontura;
- sedação;
- náusea.
Além disso, os estudos disponíveis foram, em sua maioria, de curta duração. Dessa forma, ainda não existem evidências suficientes para caracterizar adequadamente riscos associados ao uso prolongado, incluindo psicose, transtorno por uso de cannabis e possíveis déficits cognitivos.
Conclusão
A revisão sistemática sugere que produtos à base de cannabis com proporções elevadas de THC em relação ao CBD podem proporcionar alívio moderado da dor, enquanto produtos com quantidades mais equilibradas dos dois canabinoides apresentam efeito menor.
Apesar dos resultados promissores, o possível benefício deve ser ponderado diante do risco de tontura, sedação e náusea, além da insuficiência de dados sobre a segurança do uso prolongado.
Assim, os resultados reforçam a importância de considerar não apenas a presença de cannabis em uma formulação, mas também a proporção entre THC e CBD, quando se avalia seu potencial terapêutico para o controle da dor.
Relevância para a prática magistral
O estudo apresenta alta relevância para a prática magistral, principalmente por demonstrar que a proporção entre os canabinoides pode influenciar o efeito clínico esperado.
Para o farmacêutico magistral, isso reforça que uma formulação contendo cannabis medicinal não deve ser avaliada apenas pela quantidade total de canabinoides. A relação THC:CBD é uma característica importante da preparação e pode ser considerada de acordo com o objetivo terapêutico e o perfil individual do paciente.
Ao mesmo tempo, a maior proporção de THC observada nos produtos associados ao efeito analgésico moderado exige atenção especial à tolerabilidade e ao acompanhamento do paciente, principalmente devido ao risco de tontura, sedação e náusea.
Outro ponto importante é que os resultados ainda são baseados predominantemente em estudos de curta duração. Portanto, não há evidências suficientes para extrapolar esses achados para segurança e eficácia em tratamentos prolongados.
Para a prática magistral, o estudo reforça a importância de uma abordagem individualizada, considerando proporção THC:CBD, objetivo terapêutico, dose, duração do tratamento, tolerabilidade e acompanhamento clínico.
