Os carotenoides são uma ampla família de pigmentos vegetais encontrados principalmente em frutas e vegetais de coloração amarela, laranja e vermelha, como cenoura, damasco e tomate. Entre os mais presentes na alimentação humana estão α-caroteno, β-caroteno, luteína, zeaxantina, licopeno e β-criptoxantina.
Mais recentemente, a astaxantina, um carotenoide do grupo das xantofilas produzido por algumas bactérias, microalgas e leveduras, também passou a despertar interesse científico.
Além de sua conhecida atividade antioxidante, estudos têm investigado a capacidade de determinados carotenoides de alcançar o sistema nervoso central e exercer efeitos relacionados à inflamação e ao estresse oxidativo, mecanismos que podem estar envolvidos no declínio cognitivo.
Carotenoides e o cérebro
Nem todos os carotenoides apresentam o mesmo comportamento no organismo. Alguns deles são capazes de atravessar a barreira hematoencefálica e atingir o tecido cerebral, onde podem atuar sobre processos relacionados ao equilíbrio oxidativo e inflamatório.
Esse aspecto despertou o interesse dos pesquisadores em investigar se a ingestão ou suplementação de carotenoides poderia estar associada a melhores resultados em testes de cognição.
A hipótese é particularmente relevante porque o cérebro apresenta elevada atividade metabólica e é suscetível ao estresse oxidativo. Dessa forma, compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias podem ter potencial para contribuir para a manutenção da função cerebral.
O que mostrou a meta-análise?
Para avaliar melhor essa relação, pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de estudos clínicos em humanos.
Foram selecionados 9 estudos, envolvendo um total de 4.402 indivíduos sem demência, com idades entre 45 e 78 anos.
A análise dos resultados agrupados demonstrou um efeito significativo das intervenções com carotenoides sobre os desfechos cognitivos.
Ou seja, os indivíduos que receberam intervenções envolvendo carotenoides apresentaram resultados cognitivos mais favoráveis em comparação aos grupos de controle avaliados nos estudos incluídos.
Potencial antioxidante e anti-inflamatório
Os mecanismos propostos para explicar esses resultados estão relacionados principalmente às propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias dos carotenoides.
Ao alcançar o sistema nervoso central, determinados carotenoides podem contribuir para a proteção das células cerebrais contra processos oxidativos e inflamatórios. Esses mecanismos são particularmente interessantes no contexto do envelhecimento, quando alterações relacionadas ao estresse oxidativo podem contribuir para o comprometimento da função neuronal.
Entretanto, os resultados da meta-análise demonstram uma associação entre as intervenções e melhor desempenho cognitivo, não sendo suficiente para afirmar que os carotenoides previnem ou tratam demência.
Conclusão do estudo
A revisão sistemática e meta-análise encontrou um efeito significativo das intervenções com carotenoides sobre os resultados cognitivos em adultos sem demência.
Segundo os autores, as evidências disponíveis sugerem que os carotenoides podem estar associados a um melhor desempenho cognitivo e apresentam potencial como estratégia nutricional para a manutenção da saúde cerebral.
Ainda são necessários estudos maiores e de maior duração para determinar quais carotenoides apresentam maior benefício, quais doses são mais adequadas e se esses efeitos podem efetivamente se traduzir em redução do risco de comprometimento cognitivo ou demência.
Relevância para a prática magistral
Para a farmácia magistral, os resultados são interessantes porque ampliam a discussão sobre o uso de carotenoides em estratégias voltadas à saúde cognitiva e ao envelhecimento saudável.
A possibilidade de trabalhar diferentes carotenoides individualmente ou em combinações permite considerar características específicas de cada paciente, principalmente quando o objetivo é complementar estratégias nutricionais relacionadas à proteção contra estresse oxidativo e processos inflamatórios.
Entre os compostos de maior interesse estão luteína, zeaxantina, licopeno, β-caroteno e astaxantina, embora os resultados desta meta-análise não permitam afirmar que todos apresentem o mesmo efeito cognitivo.
Assim, a principal aplicação para a prática magistral está na possibilidade de incorporar carotenoides a formulações destinadas ao suporte nutricional durante o envelhecimento, sempre considerando que as evidências atuais sustentam potencial benefício cognitivo, mas ainda não comprovam efeito preventivo ou terapêutico sobre demências.
Bibliografia consultada:
Davinelli S; et al. Carotenoids and Cognitive Outcomes: A Meta-Analysis of Randomized Intervention Trials. Antioxidants, 2021.
