As cápsulas representam a forma farmacêutica mais produzida pelas farmácias de manipulação. Para prepará-las corretamente, é necessário pesar o(s) ativo(s) prescrito(s) e completar a formulação com um excipiente adequado, responsável por proporcionar volume, homogeneidade da mistura e facilitar o processo de encapsulação.
Durante muitos anos, os excipientes foram considerados substâncias farmacologicamente inertes. Hoje, sabe-se que eles desempenham um papel muito mais importante. Além de facilitar a manipulação, podem influenciar a dissolução, estabilidade, desintegração, biodisponibilidade e desempenho terapêutico dos ativos.
Por isso, a escolha do excipiente não deve ser baseada apenas na praticidade da manipulação, mas também nas características físico-químicas do fármaco.
O primeiro passo é conhecer o ativo
Antes de definir o excipiente, é fundamental levantar informações sobre o insumo, como:
- solubilidade;
- permeabilidade;
- estabilidade;
- sensibilidade à oxidação;
- higroscopicidade;
- incompatibilidades com outros componentes;
- biodisponibilidade.
Esses dados podem ser encontrados em bancos de dados especializados, artigos científicos e monografias técnicas.
Entendendo o Sistema de Classificação Biofarmacêutica (BCS)
Uma das principais ferramentas para orientar a escolha do excipiente é o Sistema de Classificação Biofarmacêutica (BCS), proposto por Amidon e colaboradores em 1995.
O sistema classifica os fármacos conforme duas características fundamentais:
- solubilidade, que determina a facilidade com que o ativo se dissolve no trato gastrointestinal;
- permeabilidade, relacionada à capacidade do fármaco atravessar a mucosa intestinal e atingir a circulação sistêmica.
| CLASSE 1 Alta solubilidade Alta permeabilidade | CLASSE 2 Baixa solubilidade Alta permeabilidade |
| CLASSE 3 Alta solubilidade Baixa permeabilidade | CLASSE 4 Baixa solubilidade Baixa permeabilidade |
Essa classificação auxilia na definição da melhor estratégia farmacotécnica para cada ativo.
Como interpretar cada classe?
Classe I — Alta solubilidade e alta permeabilidade
São os ativos que apresentam maior facilidade de absorção.
Nesses casos, normalmente não há necessidade de utilizar excipientes específicos para aumentar a biodisponibilidade. O principal cuidado é evitar componentes que possam retardar a dissolução do fármaco.
Classe II — Baixa solubilidade e alta permeabilidade
Aqui o principal obstáculo é a dissolução.
Como a permeabilidade já é elevada, o objetivo é utilizar excipientes capazes de favorecer a dispersão e a solubilização do ativo.
Entre as estratégias utilizadas estão:
- diluentes hidrossolúveis;
- agentes molhantes;
- agentes desintegrantes;
- micronização adequada do pó.
Classe III — Alta solubilidade e baixa permeabilidade
Nesses ativos, a dissolução ocorre facilmente, porém a absorção intestinal é limitada pela baixa permeabilidade.
Como os excipientes exercem pouca influência sobre esse parâmetro, normalmente a preocupação principal é utilizar componentes que não prejudiquem a dissolução.
Classe IV — Baixa solubilidade e baixa permeabilidade
São os ativos mais desafiadores para a manipulação.
Além da baixa dissolução, apresentam dificuldade para atravessar a mucosa intestinal, exigindo estratégias farmacotécnicas mais elaboradas para melhorar sua biodisponibilidade.
Qual excipiente escolher?
Embora cada formulação deva ser avaliada individualmente, algumas recomendações gerais podem ser utilizadas.
Para ativos de Classe I e III
A literatura descreve preferência por diluentes insolúveis, como:
- celulose microcristalina;
- amido;
- talco.
Esses excipientes auxiliam na desagregação das cápsulas sem comprometer a dissolução dos ativos.
Para ativos de Classe II e IV
Como a limitação é a baixa solubilidade, podem ser utilizados recursos farmacotécnicos como:
Diluentes hidrossolúveis ou dispersíveis
- lactose;
- manitol.
Agentes molhantes
- lauril sulfato de sódio (0,1–1%);
- docusato de sódio (0,1–1%).
Agentes desintegrantes
- glicolato de amido sódico;
- croscarmelose sódica;
- amido pré-gelatinizado (5–20%).
Nos ativos Classe IV, dependendo das características do composto, podem ser necessárias estratégias adicionais, como pré-solubilização em veículos anidros antes da encapsulação.
Outros adjuvantes também fazem diferença
Além do diluente principal, outros componentes podem aumentar a estabilidade e melhorar o processamento da formulação.
Antioxidantes
Quando o ativo apresenta susceptibilidade à oxidação, podem ser utilizados:
- BHA;
- BHT;
- metabissulfito;
- ácido ascórbico.
Agentes antiumectantes
Indicados para ativos higroscópicos:
- dióxido de silício;
- carbonato de magnésio;
- óxido de magnésio.
Lubrificantes
Reduzem a aderência dos pós aos equipamentos durante a manipulação.
Os mais utilizados incluem:
- estearato de magnésio (até 2%);
- talco (até 2%).
E quando não há informações disponíveis?
Na rotina magistral é comum trabalhar com fitoterápicos, nutracêuticos e ativos pouco estudados, que nem sempre possuem classificação BCS disponível.
Nesses casos, recomenda-se avaliar ao menos a solubilidade do insumo e utilizar esse parâmetro como base para selecionar o excipiente mais adequado.
Quando a cápsula contém vários ativos com características diferentes, a estratégia mais utilizada é priorizar o componente que apresenta a condição mais crítica do ponto de vista biofarmacêutico.
Conclusão
Os excipientes deixaram de ser considerados apenas componentes de preenchimento das cápsulas. Hoje, representam elementos estratégicos capazes de influenciar a dissolução, estabilidade e desempenho dos ativos. A escolha adequada deve considerar principalmente as características biofarmacêuticas do fármaco, permitindo que a formulação seja desenvolvida de forma mais racional e alinhada às necessidades de cada substância.
Relevância para a prática magistral
A seleção do excipiente deve ser encarada como parte fundamental do desenvolvimento farmacotécnico da cápsula. Conhecer as propriedades físico-químicas do ativo, compreender sua classificação biofarmacêutica e utilizar adjuvantes adequados permite desenvolver formulações com melhor desempenho, maior estabilidade e maior potencial de biodisponibilidade, contribuindo para a qualidade final do medicamento manipulado.
Bibliografia consultada:
Amidon GL; et al. A Theoretical Basis for a Biopharmaceutic Drug Classification: The Correlation of in Vitro Drug Product Dissolution and in Vivo Bioavailability, Pharm. Res., 1995.
Ferreira AO. Guia prático da farmácia magistral. 2018
