Os casos de demência vêm aumentando em todo o mundo, em grande parte devido ao envelhecimento da população, já que o risco da doença aumenta com a idade.
Além do impacto sobre pacientes e familiares, o crescimento da demência representa uma importante demanda para os sistemas de saúde e assistência social. Nesse contexto, os pesquisadores vêm investigando estratégias capazes de retardar o início da doença, mesmo que por alguns anos.
Um estudo de coorte retrospectivo publicado na PLOS Medicine avaliou justamente essa possibilidade ao investigar se pessoas expostas ao lítio, medicamento utilizado principalmente no tratamento do transtorno afetivo bipolar e do transtorno depressivo maior, apresentavam menor risco de desenvolver demência.
Estudo comparou usuários e não usuários de lítio
Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, utilizaram registros clínicos eletrônicos de serviços de saúde mental de Cambridge e Peterborough.
Foram analisados os registros de 29.618 pessoas com 50 anos ou mais, sendo:
- 548 pessoas que receberam prescrição de lítio;
- 29.070 pessoas que não utilizaram o medicamento.
Nenhum dos participantes apresentava diagnóstico de demência no início do acompanhamento.
A idade média dos participantes era de 73,9 anos.
Menor ocorrência de demência entre usuários de lítio
Os participantes que utilizaram lítio foram acompanhados por uma média de 4,8 anos. Durante esse período, 9,7% desenvolveram demência.
Entre eles:
- 6,8% desenvolveram doença de Alzheimer;
- 2,6% desenvolveram demência vascular.
No grupo que não utilizou lítio, acompanhado por uma média de 4,3 anos, 11,2% desenvolveram demência, sendo:
- 8,1% com doença de Alzheimer;
- 2,6% com demência vascular.
Após considerar outros fatores que poderiam influenciar os resultados, os pesquisadores estimaram que a exposição ao lítio esteve associada a uma redução de 44% no risco de demência.
Como o lítio poderia exercer esse efeito?
Uma das hipóteses discutidas pelos pesquisadores envolve a glicogênio sintase quinase 3 (GSK3), uma enzima envolvida em processos relacionados à fosforilação da proteína tau.
A alteração da proteína tau e sua agregação em estruturas conhecidas como emaranhados neurofibrilares estão entre as características observadas na doença de Alzheimer.
O lítio é capaz de inibir a atividade da GSK3, o que poderia, teoricamente, interferir em mecanismos relacionados à formação dessas alterações.
Esse possível mecanismo ajuda a explicar por que o lítio vem despertando interesse em pesquisas sobre neurodegeneração.
Os resultados ainda precisam ser confirmados
Apesar dos resultados promissores, é importante considerar algumas limitações.
O número de participantes que efetivamente utilizava lítio era relativamente pequeno — apenas 548 pessoas. Além disso, trata-se de um estudo observacional retrospectivo.
Portanto, os resultados demonstram uma associação entre exposição ao lítio e menor ocorrência de demência, mas não comprovam que o lítio seja responsável por prevenir a doença.
Também não é possível, a partir desse estudo, determinar se o medicamento teria capacidade de retardar a progressão da doença em pessoas que já apresentam Alzheimer.
Por isso, os autores destacam a necessidade de estudos futuros envolvendo populações maiores e mais diversificadas, além de investigações específicas em pessoas com doença de Alzheimer.
Conclusão
A exposição ao lítio esteve associada a um risco 44% menor de desenvolver demência em comparação com pessoas que não utilizaram o medicamento no estudo analisado.
Uma possível explicação envolve a capacidade do lítio de inibir a enzima GSK3, que participa de processos relacionados à proteína tau e à fisiopatologia da doença de Alzheimer.
Embora os resultados sejam promissores, não é possível recomendar o uso de lítio para prevenção da demência com base nesse estudo. São necessários ensaios clínicos e pesquisas com amostras maiores para determinar se essa associação representa realmente um efeito neuroprotetor do medicamento.
Relevância para a prática magistral
O estudo apresenta relevância para a prática magistral voltada à saúde mental e ao envelhecimento, principalmente por trazer uma possível conexão entre um medicamento tradicionalmente utilizado em psiquiatria e mecanismos relacionados à neurodegeneração.
Para a farmácia magistral, o tema pode ser interessante na elaboração de conteúdos destinados a psiquiatras, neurologistas, geriatras e outros prescritores, especialmente para discutir a relação entre transtornos do humor, envelhecimento cerebral e estratégias de neuroproteção.
Bibliografia consultada:
Chen S; et al. Association between lithium use and the incidence of dementia and its subtypes: A retrospective cohort study. PLOS Medicine, 2022.
