Probióticos podem auxiliar no tratamento da depressão?

Probióticos podem auxiliar no tratamento da depressão?

A relação entre microbiota intestinal e saúde cerebral tem despertado cada vez mais interesse, especialmente diante das evidências que sugerem uma comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro.

Nesse contexto, um ensaio controlado randomizado avaliou se a utilização de um probiótico multicepas em altas doses, associado ao tratamento convencional com antidepressivos, poderia contribuir para a melhora dos sintomas depressivos.


Como foi realizado o estudo?

Participaram do estudo adultos com depressão, avaliados por meio da Escala de Avaliação de Depressão de Hamilton (HAM-D) e que já estavam em tratamento com algum medicamento antidepressivo.

Além do tratamento habitual, os participantes receberam durante 31 dias:

  • Probiótico multicepas: 900 bilhões de UFC/dia;
  • Placebo: como grupo controle.

A formulação probiótica continha oito cepas:

  • Streptococcus thermophilus NCIMB 30438;
  • Bifidobacterium breve NCIMB 30441;
  • Bifidobacterium longum NCIMB 30435;
  • Bifidobacterium infantis NCIMB 30436;
  • Lactobacillus acidophilus NCIMB 30442;
  • Lactobacillus plantarum NCIMB 30437;
  • Lactobacillus paracasei NCIMB 30439;
  • Lactobacillus delbrueckii subsp. bulgaricus NCIMB 30440.

As avaliações foram realizadas antes da intervenção, imediatamente após os 31 dias de tratamento e novamente quatro semanas depois.


O que os pesquisadores observaram?

Os participantes que receberam o probiótico apresentaram uma redução maior dos sintomas depressivos em comparação ao grupo placebo.

Além da melhora dos sintomas, os pesquisadores observaram uma alteração na composição da microbiota intestinal, com aumento de bactérias do gênero Lactobacillus entre os participantes que receberam o probiótico.

Esse resultado é particularmente interessante porque demonstra que a intervenção foi acompanhada não apenas de uma mudança clínica, mas também de uma modificação na microbiota intestinal.


Eixo intestino-cérebro

Os resultados reforçam a hipótese de que a microbiota intestinal pode participar da comunicação entre o intestino e o cérebro e, consequentemente, influenciar aspectos relacionados ao humor.

Nesse contexto, os probióticos podem representar uma estratégia complementar interessante, especialmente quando utilizados em conjunto com o tratamento convencional.

Entretanto, os resultados não significam que qualquer probiótico possa produzir o mesmo efeito. A resposta parece depender de fatores como cepas utilizadas, combinação de microrganismos, dose, duração do tratamento e características individuais do paciente.


Conclusão

O ensaio controlado randomizado mostrou que adultos com depressão que receberam um probiótico multicepas em alta dose, associado ao tratamento antidepressivo habitual, apresentaram maior redução dos sintomas depressivos do que aqueles que receberam placebo.

A intervenção também aumentou a presença de bactérias do gênero Lactobacillus na microbiota intestinal.

Os achados fortalecem o interesse pelo eixo intestino-cérebro e sugerem que formulações probióticas específicas podem futuramente ser utilizadas como estratégia complementar no manejo da depressão. 


Relevância para a prática magistral

Este estudo apresenta grande relevância para a prática magistral, especialmente para o desenvolvimento de formulações destinadas ao suporte da saúde mental e do eixo intestino-cérebro.

Um dos principais pontos para o farmacêutico é perceber que o resultado não foi obtido simplesmente com “um probiótico”, mas com uma combinação específica de oito cepas e uma dose extremamente elevada de 900 bilhões de UFC/dia.

Isso reforça a importância da seleção individualizada das cepas no desenvolvimento de formulações probióticas. A simples substituição de uma cepa por outra não permite presumir que o mesmo efeito clínico será reproduzido.

Para a farmácia magistral, o estudo abre possibilidades para o desenvolvimento de formulações multicepas voltadas ao suporte de pacientes em tratamento para depressão, sempre como estratégia complementar e não como substituição da terapia antidepressiva.

Também evidencia uma oportunidade de atuação do farmacêutico na personalização de formulações considerando cepas, concentração, estabilidade, forma farmacêutica e características individuais do paciente.

 

Bibliografia consultada:

Schaub AC; et al. Clinical, gut microbial and neural effects of a probiotic add-on therapy in depressed patients: a randomized controlled trial. Translational psychiatry, 2022.

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