A vitamina D é uma vitamina lipossolúvel essencial para a homeostase do cálcio e para a manutenção da saúde óssea, além de estar relacionada a diversos outros processos fisiológicos. Apesar de o organismo ser capaz de sintetizá-la a partir da exposição solar, a hipovitaminose D é bastante frequente, fazendo com que sua suplementação seja uma prática comum.
Na farmácia magistral, além da dose prescrita, a escolha do veículo e da farmacotécnica são aspectos importantes para o desenvolvimento de uma solução de vitamina D.
Convertendo UI para mcg
Um dos primeiros cuidados durante o desenvolvimento de uma solução de vitamina D é realizar corretamente a conversão da dose prescrita para a unidade de pesagem.
O laudo da matéria-prima informa a quantidade de UI por grama de vitamina D, e esse valor deve estar corretamente cadastrado nos parâmetros do sistema para evitar erros de cálculo.
De forma geral:
1 mcg de vitamina D = 40 UI
Assim, a conversão correta da dose prescrita é fundamental para garantir a concentração adequada da preparação.
Vitamina D em cápsula ou em solução: qual apresenta maior absorção?
A absorção da vitamina D pelo trato gastrointestinal ocorre de maneira semelhante à de outros lipídios.
A presença de gordura no duodeno estimula a liberação de ácidos biliares e a formação de micelas, que posteriormente são absorvidas pelos enterócitos por difusão passiva.
A partir desse mecanismo, surgiu a hipótese de que solubilizar a vitamina D em óleo poderia aumentar sua biodisponibilidade.
Entretanto, os estudos que avaliaram essa possibilidade não conseguiram demonstrar de maneira consistente que a presença de óleo aumente a absorção da vitamina D.
Um estudo que comparou a biodisponibilidade da vitamina D administrada com suco de laranja e leite não encontrou influência significativa do conteúdo lipídico do leite.
Resultado semelhante foi observado em uma comparação entre dois tipos de queijo cheddar enriquecidos com vitamina D: um contendo 33% de gordura e outro apenas 7%.
Também não foi possível demonstrar aumento da absorção quando a vitamina D foi consumida associada a 2 g de óleo de peixe.
Portanto, apesar de a vitamina D ser lipossolúvel, os dados apresentados não permitem afirmar que simplesmente adicionar gordura à formulação necessariamente aumentará sua biodisponibilidade.
Qual óleo utilizar como veículo?
Outro aspecto interessante é o possível efeito do tipo de óleo utilizado como veículo.
Um estudo comparou a administração de vitamina D solubilizada em:
- óleo de amendoim, rico em triglicerídeos de cadeia longa;
- triglicerídeos de cadeia média (TCM).
Nesse estudo, a vitamina D veiculada em óleo de amendoim apresentou melhor absorção.
Outra comparação avaliou diferentes tipos de ácidos graxos e observou uma possível vantagem dos ácidos graxos monoinsaturados em relação aos poli-insaturados para a absorção da vitamina D.
Dessa forma, com base nos estudos apresentados, os veículos que apresentam maior interesse são os óleos ricos em ácidos graxos monoinsaturados de cadeia longa, como:
- óleo de amendoim;
- azeite de oliva;
- óleo de abacate;
- óleo de girassol com alto teor de ácido oleico.
Qual aroma utilizar?
Quando se desenvolve uma solução oleosa de vitamina D, é necessário considerar que os componentes líquidos precisam permanecer solúveis entre si.
Por isso, para flavorizar adequadamente a preparação, a escolha deve recair sobre aromas lipofílicos.
Os óleos essenciais podem deixar um retrogosto amargo, prejudicando a aceitação da preparação.
É necessário utilizar edulcorante?
Na maioria das vezes, a solução de vitamina D é administrada em um volume bastante pequeno, geralmente 2 a 5 gotas.
Por isso, a utilização de um aroma adequado pode ser suficiente para proporcionar um paladar agradável, sem necessidade de adicionar um edulcorante.
Outro ponto importante é a solubilidade do adoçante.
Como os edulcorantes são geralmente hidrossolúveis, sua incorporação diretamente em uma solução oleosa pode provocar separação de fases.
Isso cria um problema farmacotécnico importante: o paciente poderia aspirar pelo conta-gotas uma quantidade desproporcional do edulcorante, ocasionando erro na dose administrada.
Caso seja necessário utilizar um edulcorante, uma alternativa seria desenvolver a preparação na forma de emulsão, permitindo incorporar adequadamente componentes de diferentes características de solubilidade.
Conclusão
A preparação magistral de soluções de vitamina D exige mais do que simplesmente calcular a quantidade da matéria-prima.
A escolha do veículo, aroma, forma farmacêutica e sistema de solubilização pode interferir diretamente na qualidade e na experiência de utilização da preparação.
Embora a vitamina D seja lipossolúvel, os estudos apresentados não demonstram que a simples adição de gordura aumente necessariamente sua biodisponibilidade. Por outro lado, existem evidências indicando que o tipo de óleo utilizado como veículo pode influenciar a absorção, com resultados favoráveis para óleos ricos em ácidos graxos monoinsaturados de cadeia longa.
Relevância para a prática magistral
Esse conteúdo apresenta alta relevância para a prática magistral, pois aborda diretamente aspectos farmacotécnicos envolvidos no desenvolvimento de uma preparação bastante solicitada: a solução oral de vitamina D.
O farmacêutico precisa considerar não apenas a concentração prescrita, mas também:
- correta conversão entre UI e mcg;
- escolha do veículo oleoso;
- compatibilidade entre os componentes;
- utilização de aromas lipofílicos;
- risco de separação de fases;
- possibilidade de erro de dose;
- necessidade ou não de utilização de edulcorantes.
Um ponto particularmente importante é evitar a escolha automática de um veículo apenas porque a vitamina D é lipossolúvel. Os estudos apresentados mostram que a presença de gordura, isoladamente, não garante maior biodisponibilidade, enquanto algumas características do óleo utilizado podem ser relevantes.
Esse tipo de conhecimento pode ser transformado em material técnico de grande utilidade para farmacêuticos de manipulação, especialmente durante o desenvolvimento e a padronização de soluções oleosas de vitamina D.
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