Os antipsicóticos, especialmente aqueles utilizados em tratamentos de longo prazo, podem estar associados a alterações metabólicas como ganho de peso e aumento dos níveis de colesterol. Entretanto, ainda existem dúvidas sobre até que ponto esses efeitos estão relacionados à dose utilizada.
Um estudo realizado por pesquisadores suíços e publicado no Journal of Clinical Psychiatry investigou justamente essa possível relação em pacientes tratados com risperidona e/ou paliperidona, seu principal metabólito ativo.
Como foi realizado o estudo?
Os pesquisadores analisaram dados de 438 pacientes que utilizaram risperidona e/ou paliperidona durante um período de 12 meses.
O objetivo foi verificar se alterações na dose de risperidona estavam associadas a mudanças no peso corporal e no perfil lipídico dos pacientes.
Maior dose, maior ganho de peso?
Os resultados mostraram uma associação entre o aumento da dose diária de risperidona e o ganho de peso.
Para cada aumento de 1 mg na dose de risperidona, foi observado um aumento relativo do peso de:
- 0,16% após 1 mês;
- 0,29% após 3 meses;
- 0,21% após 6 meses;
- 0,25% após 12 meses.
Além disso, cada aumento de 1 mg na dose esteve associado a um aumento do risco de apresentar ganho de peso ≥5% após um mês de tratamento (OR = 1,18; P = 0,012).
Segundo os pesquisadores, esse ganho de peso inicial é um importante indicador de maior ganho de peso posteriormente.
E o colesterol?
A análise também identificou uma associação entre o aumento da dose e alterações no perfil lipídico.
Após um ano de tratamento, cada aumento de 1 mg na dose de risperidona esteve associado a:
- aumento de 0,05 mmol/L (1,93 mg/dL) no colesterol total;
- aumento de 0,04 mmol/L (1,54 mg/dL) no colesterol LDL.
Embora as alterações tenham sido relativamente pequenas, os resultados sugerem que a dose diária de risperidona pode exercer influência sobre parâmetros metabólicos.
Isso significa que reduzir a dose faz o peso diminuir?
Não necessariamente.
Esse é um ponto importante destacado pelos próprios resultados. O estudo identificou uma associação entre aumento da dose e alterações metabólicas, mas isso não significa que reduzir a dose necessariamente provocará perda de peso ou redução do colesterol.
Além disso, como se trata de uma análise observacional, outros fatores podem contribuir para essas alterações.
Conclusão
Os resultados sugerem que aumentos na dose diária de risperidona estão associados a pequenos aumentos no ganho de peso e nos níveis de colesterol total e LDL.
O aumento de apenas 1 mg na dose já esteve relacionado a uma maior probabilidade de ganho de peso ≥5% no primeiro mês, um indicador relevante para o acompanhamento metabólico do paciente.
Os autores destacam que esses resultados devem servir como um alerta para o prescritor no momento de aumentar a dose, reforçando a importância de utilizar a menor dose efetiva e acompanhar parâmetros metabólicos durante o tratamento.
Relevância para a prática magistral
O estudo apresenta relevância para a prática magistral, principalmente para profissionais que trabalham com estratégias complementares voltadas ao controle metabólico de pacientes em tratamento com antipsicóticos.
O farmacêutico pode ter papel importante no acompanhamento de pacientes que utilizam risperidona, observando especialmente peso corporal e perfil lipídico, e auxiliando o prescritor na identificação de alterações que mereçam atenção.
Os resultados também reforçam que qualquer estratégia magistral destinada a esse público deve ser pensada de forma individualizada, considerando o medicamento utilizado, dose, evolução do peso, perfil lipídico e demais fatores de risco metabólico.
É importante, porém, não interpretar o estudo como justificativa para reduzir ou modificar a dose da risperidona por conta própria. A decisão sobre dose deve permanecer sob responsabilidade do prescritor, considerando o equilíbrio entre eficácia terapêutica e efeitos adversos.
Bibliografia consultada:
Piras M; et al. Daily Dose Effects of Risperidone on Weight and Other Metabolic Parameters: A Prospective Cohort Study. Journal of Clinical Psychiatry, 2022.
