A solução de Lugol é uma preparação frequentemente utilizada na farmácia magistral e, apesar de sua formulação ser relativamente simples, ainda gera dúvidas relacionadas ao preparo, aos cálculos e à quantidade real de iodo presente em cada gota.
Neste artigo, revisamos os principais conceitos farmacotécnicos envolvidos na manipulação da solução de Lugol e mostramos como calcular corretamente o teor de iodo da formulação.
O que é a solução de Lugol?
A solução de Lugol é uma preparação aquosa composta por:
- iodo (I₂);
- iodeto de potássio (KI);
- água purificada.
O iodeto de potássio não está presente apenas como um componente adicional da fórmula. Sua principal função é aumentar a solubilidade do iodo em água.
Segundo a Farmacopeia Brasileira, o iodo elementar apresenta baixa solubilidade em água. Quando o iodeto de potássio é adicionado, ocorre a formação do íon triiodeto (I₃⁻), muito mais solúvel em meio aquoso.
Reação simplificada
KI + I₂ → KI₃
Esse mecanismo permite a obtenção de uma solução estável e homogênea.
Qual é a composição da solução de Lugol 2%?
Para preparar 100 mL de solução de Lugol a 2%, utiliza-se:
| SOLUÇÃO DE LUGOL 2% | |
| Iodo metalóide | 2 g |
| Iodeto de potássio | 4 g |
| Água qsp | 100 mL |
Observação: Tradicionalmente, utiliza-se iodeto de potássio em quantidade equivalente ao dobro da concentração de iodo para favorecer sua completa solubilização.
Como preparar a solução de Lugol?
O preparo pode ser realizado seguindo as etapas abaixo:
- Pesar o iodo e o iodeto de potássio.
- Triturar ambos em gral de vidro.
- Adicionar a água purificada lentamente, sob agitação.
- Manter a preparação em repouso por aproximadamente 20 minutos para favorecer a completa solubilização.
- Transferir para um cálice graduado e completar o volume final.
- Envasar em frasco de vidro âmbar para proteção contra a luz.
Atenção à prescrição
Nem todas as prescrições seguem a composição clássica da solução de Lugol.
Em alguns casos, o prescritor informa separadamente as quantidades de:
- iodo;
- iodeto de potássio.
Por esse motivo, é fundamental conferir atentamente a prescrição antes de realizar os cálculos da formulação.
Quantos miligramas de iodo existem em uma gota de Lugol?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes na prática magistral.
Muitas pessoas consideram apenas o iodo elementar presente na fórmula. Entretanto, o iodeto de potássio também contribui para o teor total de iodo disponível na solução.
Vamos utilizar como exemplo a solução de Lugol 2%.
Passo 1 — Iodo elementar
Na fórmula existem:
- 2 g de iodo em 100 mL.
Considerando que:
- 1 gota = aproximadamente 0,05 mL,
temos:
- 1 mg de iodo por gota proveniente do iodo elementar.
Passo 2 — Iodo proveniente do iodeto de potássio
O iodeto de potássio possui:
- Peso molecular do KI = 166,0
- Peso atômico do iodo = 126,9
Assim, aproximadamente 76,4% da massa do KI corresponde ao iodo.
Na fórmula foram utilizados:
- 4 g de KI
Logo:
4 g × 76,4% = 3,06 g de iodo
Esses 3,06 g estão distribuídos em 100 mL.
Cada gota contém aproximadamente:
1,5 mg de iodo provenientes do iodeto de potássio.
Quantidade total de iodo por gota
Somando as duas fontes de iodo presentes na preparação:
| Origem do iodo | Quantidade por gota |
|---|---|
| Iodo elementar | 1,0 mg |
| Iodo proveniente do KI | 1,5 mg |
| Total | 2,5 mg |
Assim, cada gota da solução de Lugol 2% fornece aproximadamente 2,5 mg de iodo total.
Conclusão
Embora a manipulação da solução de Lugol seja considerada relativamente simples, compreender o papel do iodeto de potássio e calcular corretamente o teor total de iodo são etapas fundamentais para garantir a qualidade da preparação e a correta interpretação das prescrições. A avaliação cuidadosa da composição solicitada pelo prescritor e a aplicação dos cálculos farmacotécnicos adequados contribuem para maior segurança na rotina da farmácia magistral.
Relevância para a prática magistral
A solução de Lugol continua sendo uma preparação frequentemente manipulada. Conhecer sua composição, os mecanismos envolvidos na solubilização do iodo e o cálculo do teor de iodo por gota permite ao farmacêutico magistral interpretar corretamente as prescrições, orientar prescritores e pacientes e garantir maior precisão no preparo da formulação.
