Resveratrol no vinho: seria preciso beber mais de 120 taças para atingir uma dose efetiva

Resveratrol no vinho: seria preciso beber mais de 120 taças para atingir uma dose efetiva

É comum ouvir que uma taça de vinho faz bem para a saúde. Grande parte dessa reputação está relacionada ao resveratrol, um polifenol naturalmente presente na casca das uvas e reconhecido por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Diversos estudos associam esse composto à proteção cardiovascular, saúde cerebral, envelhecimento saudável e modulação do estresse oxidativo.

No entanto, uma dúvida importante permanece: a quantidade de resveratrol presente no vinho é suficiente para produzir esses benefícios?

A resposta, na prática, é não.


O que é o resveratrol?

O resveratrol é um composto fenólico produzido pelas plantas como mecanismo natural de defesa contra fungos, radiação ultravioleta e outros fatores ambientais.

Sua maior concentração é encontrada principalmente na casca de frutas como:

  • uvas;
  • mirtilos;
  • framboesas;
  • amoras.

Como o vinho tinto permanece mais tempo em contato com a casca durante sua produção, ele concentra quantidades maiores de resveratrol quando comparado ao vinho rosé, branco ou espumante.


Quanto resveratrol existe em uma taça de vinho?

Embora o vinho seja uma fonte natural de resveratrol, sua concentração é relativamente baixa.

A tabela abaixo ilustra a quantidade média encontrada em diferentes tipos de vinho e quantas taças seriam necessárias para atingir aproximadamente 50 mg, uma dose frequentemente utilizada em estudos e suplementos.

Tipos de VinhoQuantidade média de resveratrol mg / 100 mLNúmero de copos (150 ml) que você precisa beber para obter 50 mg de resveratrol
Vinho Tinto (St. Laurent, Pinot noir)0,27123
Vinho de Rosa (Cabernet Sauvignon, Syrah)0,12277
Vinho branco (Chardonnay, Sauvignon Blanc)0,04833
Vinho espumante (champanhe, prosecco)0,0093703

Esses números demonstram que seria praticamente impossível atingir uma dose considerada suplementar apenas por meio do consumo de vinho.


Qual é a dose utilizada em suplementos?

Nos suplementos alimentares e formulações magistrais, o resveratrol costuma ser administrado em doses que variam entre 5 e 250 mg ao dia, dependendo da indicação clínica e do objetivo terapêutico.

Mesmo considerando uma dose relativamente baixa, como 50 mg, seriam necessárias mais de 120 taças de vinho tinto, quantidade incompatível com qualquer padrão seguro de consumo de álcool.


Então por que o vinho é considerado benéfico?

Os benefícios observados em populações que consomem vinho de forma moderada provavelmente não se devem exclusivamente ao resveratrol.

Na literatura científica, esses efeitos são frequentemente associados ao chamado padrão alimentar mediterrâneo, caracterizado por:

  • elevado consumo de frutas e vegetais;
  • azeite de oliva como principal fonte de gordura;
  • oleaginosas;
  • peixes;
  • leguminosas;
  • prática regular de atividade física;
  • consumo moderado de vinho durante as refeições.

Ou seja, o vinho representa apenas um dos componentes de um estilo de vida saudável, e não o principal responsável pelos benefícios cardiovasculares observados.


Vale a pena consumir vinho por causa do resveratrol?

Do ponto de vista científico, não.

Embora o vinho contenha resveratrol, sua concentração é insuficiente para fornecer as quantidades utilizadas na maioria dos estudos clínicos. Além disso, o consumo excessivo de álcool aumenta o risco de diversas doenças, incluindo hipertensão, cirrose, vários tipos de câncer e doenças cardiovasculares.

Assim, utilizar o vinho como estratégia para obter resveratrol não é uma conduta recomendada.


Conclusão

O vinho tinto contém mais resveratrol do que outras variedades, mas em quantidades muito inferiores às doses normalmente empregadas em suplementos e pesquisas clínicas. Embora possa fazer parte de uma alimentação equilibrada quando consumido com moderação, seus possíveis benefícios não justificam seu consumo com o objetivo de obter resveratrol.

Para alcançar doses potencialmente terapêuticas, a suplementação continua sendo a alternativa mais racional e segura.


Relevância para a prática magistral

A baixa concentração de resveratrol presente no vinho reforça a importância da suplementação quando o objetivo é alcançar doses utilizadas em estudos clínicos. Na farmácia magistral, o resveratrol pode ser manipulado em doses individualizadas, isoladamente ou associado a outros compostos antioxidantes, conforme a necessidade clínica e a prescrição do profissional habilitado. Essa abordagem permite atingir concentrações biologicamente relevantes sem expor o paciente aos riscos do consumo excessivo de álcool.

 

Bibliografia consultada:

Weiskirchen, Sabine et al. “Resveratrol: How Much Wine Do You Have to Drink to Stay Healthy? 1, 2, 3.” Adv Nut., July 2016

 

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