Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) estão entre os medicamentos frequentemente utilizados para controlar a dor associada à osteoartrite (OA).
Como a inflamação participa da evolução da doença, é natural pensar que reduzir esse processo poderia também contribuir para proteger a articulação.
Mas será que o uso prolongado de AINEs realmente melhora a evolução da osteoartrite?
Novos dados apresentados na Reunião Anual de 2022 da Sociedade Radiológica da América do Norte levantaram uma questão importante.
O que os pesquisadores avaliaram?
O estudo investigou a relação entre o uso de AINEs e a sinovite, que corresponde à inflamação da membrana que reveste a articulação do joelho.
Foram avaliados participantes com osteoartrite moderada a grave que utilizavam AINEs regularmente há pelo menos um ano.
Todos realizaram exames de ressonância magnética no início do estudo e novamente após quatro anos.
As imagens foram analisadas considerando diferentes biomarcadores relacionados à inflamação e à estrutura da articulação, incluindo:
- espessura da cartilagem;
- composição da cartilagem;
- sinais de inflamação articular.
E quais foram os resultados?
Os pesquisadores não observaram benefício a longo prazo associado ao uso de AINEs.
Os participantes que utilizavam esses medicamentos apresentavam, já no início do estudo, maior inflamação articular e pior qualidade da cartilagem em comparação ao grupo controle.
Após quatro anos, esses parâmetros também haviam piorado.
Ou seja, o estudo não encontrou evidências de que o uso prolongado de AINEs tenha sido capaz de impedir a progressão das alterações estruturais observadas na osteoartrite.
Mas os AINEs causaram essa piora?
Não é possível afirmar.
Esse é um ponto fundamental para interpretar corretamente o estudo.
Como a pesquisa foi observacional, os participantes não foram aleatoriamente designados para receber ou não AINEs.
É possível, por exemplo, que as pessoas que utilizavam AINEs regularmente já apresentassem uma osteoartrite mais dolorosa ou grave, o que poderia explicar parte das diferenças encontradas.
Os pesquisadores realizaram ajustes para possíveis fatores de confusão, mas reconheceram que ainda são necessários ensaios clínicos randomizados para determinar se os AINEs realmente influenciam a progressão da osteoartrite ou se os resultados refletem principalmente as características dos pacientes que necessitam desses medicamentos.
O que esse estudo acrescenta?
Os resultados levantam uma questão importante sobre a diferença entre controlar os sintomas e modificar a evolução da doença.
Os AINEs podem ser utilizados para o controle da dor e da inflamação, mas isso não significa necessariamente que tenham efeito protetor sobre a estrutura da articulação.
Por isso, novas pesquisas são importantes para esclarecer os possíveis benefícios e riscos do uso prolongado desses medicamentos na osteoartrite.
Relevância para a prática magistral
O estudo é relevante para a prática magistral porque reforça a importância de uma abordagem individualizada no manejo da dor e da inflamação associadas à osteoartrite.
Para a farmácia de manipulação, o tema pode ser explorado em materiais técnicos direcionados a profissionais que atuam no tratamento da osteoartrite, apresentando diferentes estratégias farmacológicas e nutricionais estudadas para o controle dos sintomas.
É importante, porém, que qualquer estratégia complementar seja apresentada como adjuvante, sem substituir o tratamento prescrito ou sugerir que a manipulação possa modificar a evolução estrutural da osteoartrite sem evidências clínicas suficientes.
Controlar a dor é importante. Mas entender se uma estratégia também modifica a evolução da doença é uma questão completamente diferente — e a ciência ainda busca essa resposta para os AINEs na osteoartrite.
