A constipação intestinal é uma queixa frequente entre pessoas idosas e pode comprometer significativamente a qualidade de vida. Diante do desconforto, é comum que o paciente recorra à automedicação com laxantes, muitas vezes sem considerar as características individuais, outras doenças e os medicamentos utilizados.
Mas será que todos os laxantes apresentam o mesmo perfil de eficácia e segurança nessa população?
Uma revisão de estudos clínicos buscou justamente avaliar as evidências disponíveis sobre os principais laxantes utilizados por pacientes idosos.
O que os pesquisadores avaliaram?
Foram incluídos 23 ensaios clínicos randomizados, que avaliaram diferentes estratégias para o tratamento da constipação em idosos.
Entre os produtos analisados estavam:
- Psyllium;
- policarbofil de cálcio;
- lactulose;
- lactitol;
- polietilenoglicol (PEG);
- hidróxido de magnésio;
- prucaloprida;
- lubiprostona;
- elobixibat.
Entre os tratamentos avaliados, o PEG apresentou um dos melhores resultados em relação à eficácia e segurança, inclusive em estudos com duração de até seis meses.
E o que a revisão mostrou sobre cada opção?
Psyllium
O psyllium foi capaz de reduzir o tempo de trânsito intestinal e melhorar a consistência das fezes. Entretanto, não foram observados aumentos significativos na frequência das evacuações ou redução do uso de outros laxantes.
Os estudos avaliados envolveram poucos participantes, o que limita a força das evidências.
Policarbofil de cálcio
As evidências ainda são insuficientes. Em um estudo comparativo, seus efeitos foram semelhantes aos do psyllium, mas alguns pacientes demonstraram preferência pelo policarbofil por provocar menos gases.
Lactulose, lactitol e PEG
Os laxantes osmóticos apresentaram resultados favoráveis.
Em um estudo com duração de seis meses, o PEG foi mais eficaz que a lactulose no alívio dos sintomas da constipação, sem diferença significativa na frequência de eventos adversos.
A revisão também aponta que o PEG pode ser preferido à lactulose em algumas diretrizes.
Hidróxido de magnésio
O hidróxido de magnésio aumentou a frequência das evacuações, melhorou a consistência das fezes e reduziu a necessidade de outros laxantes.
Porém, foi observado aumento dos níveis séricos de magnésio em alguns pacientes com função renal comprometida. Por isso, essa opção exige atenção especial em idosos com alterações renais.
Prucaloprida
A prucaloprida aumentou a frequência das evacuações em comparação ao placebo e apresentou incidência de eventos adversos semelhante à observada no grupo controle.
Os efeitos adversos mais frequentes incluíram cefaleia, dor abdominal, diarreia e náusea.
Segundo a revisão, pode ser considerada uma alternativa quando outras estratégias, como fibras e laxantes osmóticos, não apresentam resposta satisfatória.
Lubiprostona
Os dados disponíveis em idosos ainda são limitados. Embora tenha aumentado os movimentos intestinais e melhorado a consistência das fezes, são necessários estudos maiores para estabelecer melhor sua eficácia e segurança nessa população.
Elobixibat
O elobixibat demonstrou eficácia em um estudo de curta duração, mas os dados especificamente em idosos foram muito limitados. Apenas 11 pacientes idosos participaram do estudo avaliado, com acompanhamento de somente duas semanas.
Dessa forma, os autores consideram insuficiente a evidência disponível para recomendar seu uso nessa população.
E os laxantes estimulantes?
Um ponto interessante da revisão é que fitoterápicos e alguns laxantes, como o bisacodil, não foram incluídos na análise por falta de estudos considerados relevantes, atuais e com avaliação de longo prazo em idosos.
Isso não significa que o bisacodil não seja utilizado nessa população.
Segundo as diretrizes mencionadas na revisão, o medicamento pode ser utilizado quando não há resposta satisfatória às fibras ou aos laxantes osmóticos, mas preferencialmente por períodos curtos, devido aos potenciais riscos associados ao uso prolongado.
O que podemos concluir?
A revisão mostra que existem diferentes opções para o manejo da constipação em idosos, mas as evidências não são equivalentes para todos os laxantes.
Entre as opções avaliadas, o polietilenoglicol (PEG) apresentou evidências particularmente favoráveis de eficácia e segurança em tratamentos de até seis meses.
Ainda assim, a escolha do laxante deve considerar as condições clínicas do paciente, função renal, medicamentos utilizados, duração da constipação e resposta aos tratamentos anteriores.
Automedicação com laxantes não deve ser encarada como uma solução simples para a constipação em idosos.
Relevância para a prática magistral
A constipação em idosos representa uma oportunidade para a farmácia magistral atuar de maneira mais próxima do prescritor, especialmente na busca por estratégias individualizadas para pacientes com diferentes necessidades e limitações clínicas.
O tema também permite desenvolver materiais técnicos para visitação, apresentando de forma comparativa as evidências disponíveis sobre fibras, laxantes osmóticos e outras opções farmacológicas.
Além disso, a possibilidade de trabalhar com diferentes formas farmacêuticas, concentrações e associações pode facilitar a adaptação do tratamento à rotina e às características de cada paciente, sempre respeitando a indicação do prescritor.
Conhecer as evidências sobre eficácia e segurança de cada opção permite que a farmácia magistral deixe de simplesmente oferecer um laxante e passe a participar de uma discussão técnica sobre qual estratégia pode ser mais adequada para cada paciente.
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Bibliografia consultada:
Kang SJ; et al. Medical Management of Constipation in Elderly Patients: Systematic Review. J Neurogastroenterol Motil. 2021
