A gabapentina, atualmente utilizada principalmente no controle de convulsões e no tratamento de dores neuropáticas, pode ter uma aplicação adicional no contexto da recuperação após um acidente vascular cerebral (AVC).
Uma nova pesquisa, realizada em animais, sugere que o medicamento pode favorecer a recuperação dos movimentos ao permitir que neurônios do lado não lesionado do cérebro assumam parcialmente funções de sinalização que foram perdidas após o AVC.
O que acontece após um AVC?
O estudo utilizou modelos animais que reproduziram características do AVC isquêmico, no qual um coágulo interrompe o fluxo sanguíneo cerebral, provocando a morte de neurônios na região afetada.
Após a lesão, ocorre uma reorganização da atividade neural. Alguns neurônios sobreviventes passam a participar da recuperação das funções perdidas, mas essa adaptação nem sempre acontece de maneira eficiente.
Um dos fenômenos observados após a lesão é a hiperexcitabilidade dos neurônios, caracterizada por uma sinalização excessiva. Essa alteração pode contribuir para contrações musculares descoordenadas e dor e, segundo os pesquisadores, também pode interferir no processo de reorganização neural.
Onde entra a gabapentina?
A gabapentina atua sobre as subunidades α2δ1/α2δ2 dos canais de cálcio dependentes de voltagem.
Após uma lesão neuronal, essas subunidades podem ser superexpressas. Embora tenham funções importantes durante o desenvolvimento do sistema nervoso, sua presença aumentada após uma lesão pode inibir o crescimento dos axônios em um momento em que a reorganização das conexões neurais seria desejável.
Segundo a hipótese investigada no estudo, a gabapentina, ao se ligar a essas subunidades, poderia reduzir essa sinalização inadequada e criar condições mais favoráveis para a reorganização das conexões motoras.
Recuperação dos movimentos
Os animais receberam gabapentina diariamente durante seis semanas após o AVC.
Ao final desse período, os pesquisadores observaram uma recuperação das funções motoras finas das extremidades superiores.
Um resultado particularmente interessante foi que a melhora permaneceu mesmo depois da suspensão do medicamento, sugerindo que o efeito poderia estar relacionado não apenas a uma ação sintomática temporária, mas à reorganização dos circuitos neurais envolvidos no movimento.
O momento de iniciar o tratamento parece ser importante
Os pesquisadores também avaliaram se o momento de início da administração da gabapentina influenciaria os resultados.
O tratamento começou em momentos diferentes após o AVC, incluindo uma hora ou um dia depois da lesão. Os resultados de recuperação foram semelhantes.
Isso sugere que, diferentemente das intervenções destinadas a restabelecer rapidamente o fluxo sanguíneo cerebral, a gabapentina não teria como principal função atuar na fase aguda para reverter a obstrução vascular.
Seu possível papel estaria relacionado à fase de recuperação e reorganização neural após a lesão.
Ação sobre neurônios motores
Os efeitos observados foram particularmente relacionados a neurônios motores específicos cujos axônios conduzem sinais do sistema nervoso central para os músculos.
A hipótese apresentada pelos pesquisadores é que, ao reduzir a ação das subunidades α2δ1/α2δ2, a gabapentina poderia favorecer uma reorganização mais coordenada dessas conexões.
Dessa maneira, neurônios do lado não lesionado do cérebro poderiam assumir parte das funções anteriormente desempenhadas pelos neurônios destruídos pelo AVC.
Conclusão
Os resultados sugerem que a gabapentina pode favorecer a recuperação motora após um AVC, pelo menos em modelos animais.
O mecanismo proposto envolve a modulação das subunidades α2δ1/α2δ2, reduzindo a hiperexcitabilidade neuronal e permitindo uma reorganização mais eficiente das conexões responsáveis pelo controle dos movimentos.
O fato de a melhora ter persistido após a suspensão do medicamento é particularmente interessante, pois levanta a possibilidade de que o tratamento possa favorecer processos de neuroplasticidade, e não apenas produzir uma melhora transitória dos sintomas.
Entretanto, é fundamental destacar que os resultados foram obtidos em animais. Portanto, ainda não é possível afirmar que a gabapentina produza o mesmo efeito em seres humanos após um AVC, nem recomendar seu uso com essa finalidade clínica. Ensaios clínicos serão necessários para determinar sua eficácia, dose, segurança e população que poderia se beneficiar.
Relevância para a prática magistral
O estudo apresenta interesse para a prática magistral principalmente por explorar um novo possível mecanismo de utilização de um fármaco já conhecido, relacionado à neuroplasticidade e à recuperação funcional após uma lesão do sistema nervoso central.
O estudo também reforça um conceito importante: na recuperação pós-AVC, o objetivo de determinadas intervenções pode não ser apenas proteger o tecido cerebral imediatamente após a lesão, mas também favorecer a reorganização dos circuitos neurais durante a fase de recuperação.
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Bibliografia consultada:
Andrea Tedeschi et al. Harnessing cortical plasticity via gabapentinoid administration promotes recovery after stroke. Brain, 2022
