A relação entre som, cérebro e percepção da dor vem sendo estudada há décadas. A musicoterapia, por exemplo, já é utilizada como estratégia complementar para auxiliar no controle da dor em diferentes situações, como no período após cirurgias, durante e após o trabalho de parto e no tratamento de pacientes com câncer.
Mas será que existe um mecanismo neurológico por trás desse efeito?
Um estudo publicado na revista Science investigou justamente essa questão e identificou, em camundongos, circuitos cerebrais envolvidos na redução da percepção da dor provocada pela exposição a sons de baixa intensidade.
O que o estudo avaliou?
Os pesquisadores provocaram um estímulo doloroso na pata dos camundongos e, posteriormente, expuseram os animais a diferentes sons, incluindo música agradável e ruído branco, em diferentes intensidades.
Os cientistas observaram o comportamento dos animais diante dos estímulos dolorosos para verificar se o som seria capaz de modificar a resposta à dor.
O volume parece ser mais importante que o tipo de música
Os resultados mostraram que os sons foram capazes de reduzir a retirada reflexiva da pata e a aversão aos estímulos dolorosos, indicando um possível efeito analgésico.
Um dos achados mais interessantes foi que o tipo de som não pareceu fazer diferença. Música ou ruído branco produziram resultados semelhantes quando apresentados na intensidade adequada.
O efeito mais evidente ocorreu quando o som estava aproximadamente 5 decibéis acima do ruído ambiente, ou seja, em uma intensidade relativamente baixa, semelhante a um som de fundo suave.
Como o som poderia interferir na dor?
Segundo os pesquisadores, o som de baixa intensidade parece inativar a via áudio-somatossensorial, reduzindo posteriormente a ativação do tálamo somatossensorial.
Essa alteração pode diminuir a atividade em regiões envolvidas na transmissão e processamento dos sinais relacionados à dor.
Em outras palavras, os resultados sugerem que um estímulo auditivo suave pode interferir nos circuitos cerebrais envolvidos na percepção dolorosa.
Ainda não podemos extrapolar para humanos
Apesar de os resultados serem interessantes, é importante destacar que o estudo foi realizado em camundongos.
Ainda não se sabe se os circuitos identificados funcionam exatamente da mesma maneira no cérebro humano ou se a exposição a sons de baixa intensidade produziria um efeito analgésico semelhante em pessoas.
Por isso, os resultados devem ser considerados evidências experimentais iniciais, e não uma comprovação de que ouvir música em determinado volume seja capaz de tratar a dor em humanos.
Conclusão
O estudo fornece uma possível explicação neurobiológica para a relação entre som e percepção da dor. Em camundongos, sons apresentados em baixa intensidade — aproximadamente 5 dB acima do ruído ambiente — reduziram respostas comportamentais associadas à dor, independentemente de serem música ou ruído branco.
Essas descobertas acrescentam uma peça importante ao entendimento de como estímulos auditivos podem influenciar os circuitos cerebrais relacionados à dor, mas estudos em humanos ainda são necessários para determinar se esse mecanismo pode ser utilizado clinicamente.
Relevância para a prática
O trabalho é interessante para a discussão sobre estratégias não farmacológicas e complementares para o manejo da dor, especialmente por apontar que o efeito observado parece estar relacionado à intensidade do estímulo sonoro e não necessariamente à preferência musical.
Bibliografia consultada:
Zhou W; et al. Sound induces analgesia through corticothalamic circuits. Science, 2022.
