Ressaca: quais nutracêuticos apresentam potencial para auxiliar no metabolismo do álcool?

Ressaca: quais nutracêuticos apresentam potencial para auxiliar no metabolismo do álcool?

Carnaval, festas, confraternizações e outros eventos costumam aumentar o consumo de bebidas alcoólicas e, consequentemente, a procura nas farmácias por soluções para os sintomas da ressaca.

Apesar da grande variedade de produtos comercializados com essa finalidade, é importante destacar que não existe, até o momento, uma fórmula capaz de impedir completamente a ressaca ou neutralizar os efeitos do consumo excessivo de álcool.

A ressaca está relacionada a um conjunto de alterações provocadas pelo álcool no organismo, envolvendo desidratação, alterações metabólicas, inflamação, estresse oxidativo e a formação de metabólitos potencialmente tóxicos. Nesse contexto, alguns nutrientes e compostos bioativos vêm sendo investigados por sua capacidade de atuar sobre diferentes etapas desse processo.


Por que o álcool provoca ressaca?

Após ser ingerido, o álcool é metabolizado principalmente no fígado. Uma das primeiras etapas desse processo envolve a conversão do etanol em acetaldeído, um metabólito altamente reativo que pode contribuir para diversos sintomas associados à ressaca.

Posteriormente, o acetaldeído é convertido em acetato, que pode ser utilizado em outras vias metabólicas.

Durante o metabolismo do álcool também ocorre aumento do estresse oxidativo e alteração do equilíbrio de sistemas antioxidantes, incluindo a glutationa, um dos principais mecanismos endógenos de defesa contra espécies reativas.

Dessa forma, estratégias nutricionais estudadas para a ressaca concentram-se principalmente em mecanismos como suporte ao sistema antioxidante, metabolismo do acetaldeído, proteção hepática e reposição de nutrientes.


N-acetilcisteína (NAC)

A N-acetilcisteína (NAC) é um derivado da cisteína e atua como precursor para a síntese de glutationa.

Estudos experimentais demonstraram que o NAC pode reduzir o estresse oxidativo e a toxicidade associados à exposição ao álcool em tecidos como fígado e cérebro. Também há pesquisas avaliando sua associação com vitamina C e possíveis efeitos sobre enzimas envolvidas no metabolismo e na resposta oxidativa desencadeada pelo álcool.

Embora exista um racional biológico consistente para sua utilização, grande parte das evidências relacionadas à proteção contra os efeitos do álcool ainda é experimental.


L-cisteína

A cisteína participa diretamente da síntese de glutationa e também vem sendo estudada por sua possível influência sobre o metabolismo do acetaldeído.

Em estudos com humanos, indivíduos que receberam L-cisteína após o consumo de álcool relataram redução de alguns sintomas da ressaca, incluindo náusea, dor de cabeça e ansiedade.

Outro estudo observou concentrações menores de acetaldeído em indivíduos que receberam L-cisteína antes da ingestão de álcool.

Esses resultados tornam a L-cisteína um dos componentes de maior interesse para futuras investigações em estratégias nutricionais voltadas à ressaca.


Glutationa

A glutationa é um importante antioxidante endógeno, presente em diversos tecidos e encontrada em concentrações particularmente elevadas no fígado.

O consumo de álcool pode reduzir os níveis hepáticos de glutationa e aumentar o estresse oxidativo, mecanismos que podem contribuir para a lesão das células hepáticas.

Em modelos animais, a administração de glutationa antes ou depois da exposição ao álcool foi associada a alterações favoráveis no metabolismo do álcool e do acetaldeído, além de menor formação de espécies reativas.


Taurina

A taurina também aparece entre os compostos investigados.

Em um estudo clínico, uma dose de taurina administrada antes e depois do consumo de álcool esteve associada a uma redução significativa das concentrações sanguíneas de acetaldeído.

Além desse possível efeito sobre o metabolismo do álcool, estudos experimentais sugerem que a taurina pode exercer ações antioxidantes e anti-inflamatórias, contribuindo para reduzir alterações relacionadas à exposição ao álcool.


S-adenosilmetionina (SAMe)

A S-adenosilmetionina (SAMe) participa de diversas reações metabólicas, incluindo processos relacionados à metilação e à síntese de glutationa.

O álcool pode interferir no metabolismo da SAMe, especialmente no fígado. Estudos experimentais e algumas investigações em humanos sugerem que a suplementação pode exercer efeitos favoráveis sobre a função hepática em determinadas condições relacionadas ao consumo de álcool.

Seu potencial está principalmente relacionado à preservação dos mecanismos antioxidantes e da função metabólica hepática.


Vitamina C

A vitamina C possui importante atividade antioxidante e também participa da regeneração de outros sistemas antioxidantes.

Em modelos animais expostos ao álcool, a administração de vitamina C foi associada à recuperação dos níveis hepáticos de glutationa e à redução de marcadores de estresse oxidativo.

Também existem evidências experimentais de possível proteção contra alterações relacionadas ao álcool em outros tecidos.

Apesar do racional fisiológico, ainda são necessários estudos clínicos específicos para determinar se a vitamina C é capaz de reduzir efetivamente os sintomas da ressaca em humanos.


Magnésio

O consumo de álcool pode aumentar a perda urinária de magnésio e contribuir para alterações na disponibilidade do mineral no organismo.

Por esse motivo, o magnésio também é investigado dentro das estratégias nutricionais relacionadas ao consumo excessivo de álcool.

Relatos clínicos já descreveram níveis reduzidos de magnésio em indivíduos com cefaleia associada à ressaca, embora a evidência disponível ainda seja limitada.

Entre as diferentes formas do mineral, o L-treonato de magnésio desperta interesse principalmente por estudos experimentais que demonstraram maior disponibilidade de magnésio no cérebro. Entretanto, não há evidência suficiente para afirmar que essa característica resulte em maior eficácia especificamente contra a ressaca.


Selênio

O selênio é essencial para o funcionamento de enzimas antioxidantes, incluindo a glutationa peroxidase.

Baixos níveis de selênio foram observados em indivíduos com doença hepática relacionada ao álcool, enquanto estudos experimentais indicam que episódios de consumo excessivo podem reduzir a disponibilidade do mineral e aumentar o estresse oxidativo.

A suplementação de selênio demonstrou efeitos protetores em modelos animais, mas ainda faltam estudos clínicos robustos que permitam estabelecer sua eficácia na prevenção ou redução da ressaca.


Vitaminas do complexo B

O consumo excessivo e frequente de álcool pode interferir na disponibilidade e no metabolismo de diversas vitaminas do complexo B, especialmente B1, B3, B6 e folato.

Por essa razão, protocolos nutricionais destinados a indivíduos com consumo excessivo de álcool podem considerar a reposição desses micronutrientes, principalmente quando há risco de inadequação nutricional.

É importante, porém, diferenciar a correção de uma deficiência nutricional da utilização de vitaminas do complexo B como tratamento específico para a ressaca. São situações distintas e com diferentes níveis de evidência.


Vitamina E

A vitamina E é um antioxidante lipossolúvel e também foi investigada em modelos experimentais de exposição ao álcool.

Estudos em animais demonstraram redução de marcadores relacionados ao estresse oxidativo, inflamação e lesão tecidual após sua administração.

Alguns resultados sugerem ainda que a combinação de vitamina E com compostos de selênio pode potencializar determinados efeitos antioxidantes.


Curcumina

A curcumina apresenta propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e também foi investigada em relação ao metabolismo do álcool.

Em um pequeno estudo preliminar realizado com homens saudáveis, a ingestão de uma preparação contendo curcumina esteve associada a concentrações menores de acetaldeído no sangue após o consumo de álcool.

Estudos em animais também sugerem redução do estresse oxidativo, inflamação e lesão tecidual relacionadas ao álcool.


Ácido alfa-lipoico

O ácido alfa-lipoico participa de processos relacionados ao metabolismo energético e apresenta propriedades antioxidantes. Também pode contribuir para a regeneração das vitaminas C e E e para a manutenção dos níveis de glutationa.

Estudos experimentais indicam que o composto pode aumentar a atividade da aldeído desidrogenase, enzima envolvida na metabolização do acetaldeído.

Em modelos animais, sua administração antes da exposição ao álcool esteve associada a menor formação de espécies reativas e alterações comportamentais relacionadas ao consumo de álcool.


Panax ginseng

O Panax ginseng é tradicionalmente utilizado para auxiliar no combate à fadiga e melhorar a disposição.

Em um pequeno estudo com homens saudáveis, a administração de extrato de Panax ginseng juntamente com uísque esteve associada a menor intensidade de alguns sintomas posteriormente relatados, incluindo fadiga, alterações cognitivas, sede e desconforto gastrointestinal.

Estudos experimentais também sugerem ações antioxidantes e anti-inflamatórias relacionadas à exposição ao álcool.


Espirulina

A espirulina também é investigada como possível estratégia nutricional para amenizar os efeitos do consumo de álcool.

Dados experimentais sugerem que seus componentes podem influenciar o metabolismo do acetaldeído e reduzir determinadas alterações tóxicas provocadas pelo etanol.


Fosfatidilcolina

A fosfatidilcolina desempenha funções estruturais importantes nas membranas celulares e tem sido estudada principalmente em relação à proteção hepática.

Pesquisas experimentais sugerem que o composto pode reduzir a formação de espécies reativas e proteger as células hepáticas contra danos oxidativos associados ao álcool.


E as fórmulas magistrais?

A variedade de mecanismos envolvidos explica por que diferentes combinações de nutrientes e compostos bioativos podem ser estudadas pela Farmácia Magistral.

Entretanto, não existe uma combinação universal ou uma “fórmula mágica” contra a ressaca. A escolha dos componentes deve considerar o objetivo da formulação, o histórico do paciente, medicamentos em uso, ingestão alimentar e possíveis contraindicações ou interações.

Além disso, os estudos apresentados utilizam diferentes doses, formas farmacêuticas e momentos de administração, e nem sempre esses protocolos podem ser diretamente reproduzidos em uma formulação magistral.

Por isso, o desenvolvimento de uma fórmula deve ser individualizado e baseado na melhor evidência disponível.


Sugestão de fórmulas:

Sachê Pré-drink 
Taurina1,5 g
Ácido lipoico500 mg
Vitamina C1 g
N-acetilcisteína1,5 g
Base para sachê aroma a escolherqsp

 

Sachê pós-drink 
L-cisteína1,5 g
Espirulina5 g
Vitamina E200 ui
Metilselenocisteína100 mcg
Base para sachê aroma a escolherqsp

 

Cápsula do dia seguinte 
Magnésio L treonato300 mg
Curcumina300 mg

Conclusão

A ressaca é consequência de uma combinação de mecanismos relacionados ao metabolismo do álcool, formação de acetaldeído, estresse oxidativo, inflamação e alterações hidroeletrolíticas e nutricionais.

Diversos nutracêuticos, incluindo N-acetilcisteína, L-cisteína, taurina, vitaminas C e E, magnésio, selênio, curcumina, ácido alfa-lipoico e Panax ginseng, apresentam resultados promissores em estudos experimentais ou clínicos preliminares.

No entanto, os níveis de evidência são bastante diferentes entre os compostos. Enquanto alguns já foram avaliados em pequenos estudos com seres humanos, outros possuem evidências predominantemente provenientes de modelos animais.

Assim, os resultados devem ser interpretados como potenciais estratégias complementares, e não como comprovação de que esses nutrientes sejam capazes de impedir a ressaca ou neutralizar os efeitos do consumo excessivo de álcool.

A principal estratégia para evitar a ressaca e os danos associados ao álcool continua sendo evitar o consumo excessivo.

 

Referências consultadas:

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