A infertilidade afeta aproximadamente 15% dos casais, e fatores masculinos estão envolvidos em cerca de 40% a 50% dos casos. Entre os fatores relacionados à fertilidade masculina, a qualidade do sêmen e a função testicular apresentam importante relação com alimentação e estado nutricional.
Uma revisão sistemática publicada em 2017 identificou associação entre uma alimentação saudável, rica em determinados nutrientes, e melhor qualidade seminal. Entre os nutrientes destacados estão os ácidos graxos ômega-3, antioxidantes como vitaminas E e C, β-caroteno, selênio, zinco, criptoxantina e licopeno, além de vitamina D e folato.
Ômega-3 e qualidade do sêmen
Alguns ensaios clínicos já haviam sugerido que a suplementação com ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 poderia melhorar parâmetros relacionados à qualidade seminal, incluindo contagem total e motilidade dos espermatozoides.
Entretanto, pesquisadores buscaram avaliar se o consumo de suplementos de ômega-3 estaria associado não apenas à qualidade do sêmen, mas também a outros indicadores da função testicular e hormonal.
O estudo observacional foi publicado no JAMA e incluiu 1.679 homens jovens dinamarqueses.
Consumo de óleo de peixe e volume seminal
Os participantes foram questionados sobre o consumo de suplementos de óleo de peixe e posteriormente avaliados quanto à qualidade do sêmen, tamanho testicular e níveis de hormônios reprodutivos.
Os resultados mostraram uma associação entre o consumo de óleo de peixe e maior volume de sêmen.
Entre os homens que relataram utilizar suplementos:
- aqueles que consumiam óleo de peixe por menos de 60 dias apresentaram volume seminal aproximadamente 0,38 mL maior;
- aqueles que consumiam por 60 dias ou mais apresentaram volume seminal aproximadamente 0,64 mL maior.
Os valores foram comparados aos homens que não relataram consumo de suplementos de óleo de peixe.
Também foi observado maior tamanho testicular
O estudo identificou ainda uma associação entre o consumo de óleo de peixe e o tamanho testicular.
Em comparação aos homens que não utilizavam o suplemento:
- consumo por menos de 60 dias: tamanho testicular aproximadamente 0,8 mL maior;
- consumo por 60 dias ou mais: aproximadamente 1,5 mL maior.
Esse resultado sugere uma possível relação entre a ingestão de ômega-3 e aspectos da função testicular.
Efeito sobre os hormônios reprodutivos
Os pesquisadores também avaliaram os níveis hormonais.
Os homens que relataram consumo de suplementos de óleo de peixe apresentaram melhores níveis de LH e FSH em comparação aos participantes que não utilizavam o suplemento.
Esses hormônios participam da regulação da função reprodutiva masculina, o que torna esse achado particularmente relevante para a investigação da relação entre nutrição e fertilidade.
O que podemos concluir?
Os resultados sugerem uma associação entre o consumo de suplementos de óleo de peixe e indicadores de melhor função testicular, incluindo maior volume seminal, maior tamanho testicular e alterações favoráveis nos níveis de LH e FSH.
Entretanto, não é possível concluir, a partir desse estudo, que a suplementação aumente efetivamente as taxas de gravidez ou de nascimento. São necessários ensaios clínicos bem delineados para confirmar esses possíveis benefícios e estabelecer dose, duração e composição ideal da suplementação.
Conclusão
A alimentação e o estado nutricional parecem desempenhar papel importante na saúde reprodutiva masculina. Entre os nutrientes estudados, os ácidos graxos ômega-3 apresentam evidências relacionadas à qualidade seminal e, neste estudo observacional, também estiveram associados a indicadores de melhor função testicular.
O consumo de óleo de peixe esteve associado a maior volume de sêmen, maior tamanho testicular e melhores níveis de LH e FSH, com associações mais expressivas entre os homens que relataram consumo por períodos mais prolongados.
Embora os resultados sejam promissores, estudos clínicos adicionais são necessários para determinar se a suplementação de ômega-3 realmente melhora a fertilidade masculina.
Relevância para a prática magistral
O tema apresenta boa aplicabilidade para a prática magistral, principalmente na elaboração de estratégias nutricionais individualizadas voltadas à saúde reprodutiva masculina.
O ômega-3 pode ser considerado um componente interessante de formulações destinadas a homens que necessitam de suporte nutricional relacionado à qualidade seminal, especialmente quando associado a outros nutrientes que também apresentam investigação científica na fertilidade masculina.
Esse conteúdo pode ser especialmente relevante para materiais técnicos destinados a urologistas, andrologistas, endocrinologistas, ginecologistas e nutricionistas, apresentando o ômega-3 como um nutriente investigado no contexto da função testicular e qualidade seminal.
Bibliografia consultada:
Jensen TK; et al. Associations of Fish Oil Supplement Use With Testicular Function in Young Men. JAMA Netw Open. 2020.
