Ômega-3 pode estar associado a uma melhor saúde cerebral já na meia-idade?

Ômega-3 pode estar associado a uma melhor saúde cerebral já na meia-idade?

Os benefícios do ômega-3 para a saúde cerebral já foram investigados principalmente em adultos mais velhos. Mas será que essa relação também pode ser observada antes do envelhecimento avançado?

Um estudo publicado na revista Neurology investigou justamente essa questão e encontrou uma associação entre maiores concentrações de ômega-3 e melhores marcadores de estrutura e função cerebral em adultos de meia-idade.


O que os pesquisadores avaliaram?

Foram analisados 2.183 participantes, sem demência ou histórico de acidente vascular cerebral.

Os pesquisadores avaliaram as concentrações de ácidos graxos ômega-3 presentes nos glóbulos vermelhos e relacionaram esses níveis a medidas obtidas por ressonância magnética e testes cognitivos.

Também foi analisado um grupo de participantes portadores da variante genética APOE4, associada a maior risco de doença de Alzheimer e outras alterações neurológicas e cardiovasculares.


E quais foram os resultados?

Os participantes que apresentavam maiores índices de ômega-3 tiveram:

  • maior volume do hipocampo, região cerebral importante para aprendizagem e memória;
  • melhor desempenho em raciocínio abstrato, relacionado à capacidade de compreender conceitos complexos e utilizar o pensamento lógico.

Entre os participantes portadores de APOE4, níveis mais elevados de ômega-3 também foram associados a menor presença de doença de pequenos vasos cerebrais.


Por que EPA e DHA podem ser importantes para o cérebro?

Os principais ácidos graxos ômega-3 presentes nos estudos relacionados à saúde cerebral são o EPA (ácido eicosapentaenoico) e o DHA (ácido docosa-hexaenoico).

O DHA, especialmente, é um importante componente das membranas das células nervosas.

Uma das hipóteses é que a disponibilidade adequada desses ácidos graxos contribua para a integridade e estabilidade das membranas neuronais.

Outra possibilidade está relacionada aos efeitos do EPA e do DHA sobre processos inflamatórios, que também podem participar das alterações associadas ao envelhecimento cerebral.

Ainda não está completamente esclarecido, entretanto, qual mecanismo explica os resultados observados.


Então, devemos suplementar ômega-3 para proteger o cérebro?

A pesquisa encontrou associações entre maiores concentrações de ômega-3 e melhores marcadores cerebrais, mas isso não comprova que aumentar a ingestão ou suplementar ômega-3 irá necessariamente melhorar a cognição ou prevenir doenças neurodegenerativas.

Além disso, os pesquisadores avaliaram principalmente os níveis de ômega-3 nos glóbulos vermelhos e sua relação com marcadores cerebrais, e não um tratamento com suplementação de ômega-3.

São necessários estudos adicionais para compreender os mecanismos envolvidos e determinar se intervenções nutricionais podem produzir benefícios clínicos.


Relevância para a prática magistral

O estudo reforça o interesse do EPA e DHA dentro das estratégias nutricionais relacionadas à saúde cerebral, envelhecimento saudável e suporte cardiovascular.

Para a prática magistral, a escolha de uma formulação com ômega-3 pode considerar características como quantidade de EPA e DHA, objetivo da suplementação e necessidades individuais do paciente.

Os resultados também oferecem um argumento interessante para materiais técnicos destinados a prescritores: a relação entre nutrição e saúde cerebral pode começar a ser investigada muito antes da terceira idade.

Cuidar do cérebro não precisa começar quando os primeiros sinais de envelhecimento aparecem. A pesquisa mostra que a meia-idade também pode ser uma janela importante para estudar estratégias de preservação da saúde cerebral.

 

Bibliografia consultada:

Satizabal CL; et al. Association of Red Blood Cell Omega-3 Fatty Acids with MRI Markers and Cognitive Function in Midlife — The Framingham Heart Study. Neurology, 2022.

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