O suco de beterraba é conhecido por ser uma fonte importante de nitrato inorgânico, composto que pode participar de uma via metabólica envolvendo as bactérias da boca e a produção de óxido nítrico (NO). Essa molécula desempenha funções importantes na regulação do tônus vascular e também está envolvida na neurotransmissão.
Agora, pesquisadores da Universidade de Exeter investigaram se o consumo regular de nitrato poderia modificar o microbioma oral de pessoas idosas, favorecendo bactérias associadas à saúde vascular e cognitiva.
O que acontece com o nitrato na boca?
Diversas bactérias presentes na cavidade oral participam da conversão do nitrato inorgânico em nitrito. Posteriormente, o nitrito pode contribuir para a formação de óxido nítrico, estabelecendo uma importante conexão entre alimentação, microbioma oral e função vascular.
Para avaliar essa relação, os pesquisadores acompanharam 30 pessoas idosas, que consumiram durante 10 dias suco de beterraba rico em nitrato ou uma preparação placebo, sem nitrato.
Ao final do período, foram analisadas amostras de saliva para verificar possíveis alterações na composição das comunidades bacterianas presentes na boca.
Nitrato modificou a composição das bactérias orais
Após a suplementação com nitrato, os pesquisadores observaram mudanças na composição do microbioma oral.
Houve aumento relativo de Proteobacteria e redução de Bacteroidetes, Firmicutes e Fusobacteria.
Alguns gêneros bacterianos também chamaram a atenção. Rothia e Streptococcus apresentaram associação com parâmetros relacionados à saúde cardiovascular, enquanto Neisseria e Haemophilus foram relacionados à cognição.
Por outro lado, bactérias como Prevotella e Veillonella, associadas a um metabolismo potencialmente pró-inflamatório, apresentaram redução após a ingestão do nitrato.
Também foi observada diminuição na abundância relativa de Clostridium difficile, bactéria considerada patogênica.
Esses resultados sugerem que o nitrato dietético pode modificar o ambiente microbiano da cavidade oral, favorecendo um perfil bacteriano potencialmente relacionado a melhores condições vasculares e cognitivas.
E a pressão arterial?
Além das alterações no microbioma, os participantes apresentaram uma redução média de aproximadamente 5 mmHg na pressão arterial sistólica após o consumo do suco de beterraba rico em nitrato.
Esse resultado é particularmente interessante porque estabelece uma possível conexão entre três elementos:
nitrato da dieta → metabolismo bacteriano oral → produção de óxido nítrico → função vascular.
Embora os resultados sejam promissores, o estudo teve curta duração e foi realizado em um grupo específico de pessoas idosas. Portanto, ainda não é possível afirmar que essas alterações no microbioma oral resultarão em benefícios cardiovasculares ou cognitivos de longo prazo.
Conclusão
O consumo de suco de beterraba rico em nitrato durante 10 dias foi associado a mudanças favoráveis na composição do microbioma oral e a uma redução média de 5 mmHg na pressão arterial sistólica em pessoas idosas.
As alterações observadas incluíram aumento de bactérias associadas à saúde vascular e cognitiva e redução de algumas espécies relacionadas à inflamação.
Os resultados reforçam a importância da relação entre alimentação, microbioma oral e saúde cardiovascular, mas novos estudos serão necessários para determinar se esses efeitos também ocorrem em outras faixas etárias e em pessoas que já apresentam doenças cardiovasculares ou comprometimento cognitivo.
Relevância para a prática magistral
O estudo amplia o interesse pelo nitrato dietético e pelos alimentos ricos em nitrato, como a beterraba, dentro de estratégias voltadas à saúde cardiovascular.
Para a prática magistral, o trabalho também traz um conceito relevante: o microbioma oral pode participar da resposta fisiológica a determinados nutrientes, funcionando como uma etapa importante na transformação de compostos presentes na dieta.
Embora os resultados ainda não permitam estabelecer protocolos terapêuticos com nitrato ou beterraba para prevenção de doenças cardiovasculares ou cognitivas, o tema abre espaço para o desenvolvimento de formulações e estratégias nutricionais que considerem a interação entre nutrientes, microbioma e metabolismo do óxido nítrico.
Bibliografia consultada:
Anni Vanhatalo et al. 2021. Network analysis of nitrate-sensitive oral microbiome reveals interactions with cognitive function and cardiovascular health across dietary interventions. Redox Biology, 2021.
