Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil está entre os países com maior número de pessoas com diabetes no mundo. Com o aumento da procura por estratégias complementares para o controle glicêmico, o uso de produtos naturais e suplementos alimentares também vem ganhando espaço.
Uma das vantagens da farmácia de manipulação é justamente a possibilidade de desenvolver formulações personalizadas, permitindo associar diferentes insumos e escolher a forma farmacêutica mais adequada às necessidades de cada paciente.
Uma revisão publicada em 2017 discutiu os suplementos com maior quantidade de evidências científicas relacionados ao diabetes. A partir desse levantamento, reunimos alguns dos principais insumos estudados e acrescentamos Gymnema sylvestre e Momordica charantia, que também apresentam estudos relacionados ao controle glicêmico.
1. Ginseng
As raízes do ginseng são utilizadas tradicionalmente como estratégia auxiliar no controle do diabetes.
Entre seus principais constituintes estão os ginsenosídeos e possivelmente os polissacarídeos, que podem estar relacionados à redução da glicemia pós-prandial.
Uma das hipóteses é que esses compostos atuem aumentando a sensibilidade dos tecidos à insulina e/ou estimulando diretamente a liberação de insulina.
2. Nicotinamida
A nicotinamida, uma forma da vitamina B3, também foi investigada na prevenção e no controle do diabetes tipo 1.
Um estudo realizado na Nova Zelândia observou redução do risco de desenvolvimento de diabetes tipo 1 em indivíduos que receberam nicotinamida.
Outros trabalhos também relataram resultados positivos. Em pacientes com menos de 15 anos que receberam 25 mg/kg/dia durante um ano, foi observada menor necessidade de insulina em comparação ao grupo que recebeu vitamina E.
Segundo a revisão analisada, estudos de maior escala investigaram a utilização da nicotinamida em pessoas com diabetes tipo 1 e encontraram evidências favoráveis aos seus efeitos em longo prazo.
3. Feno-grego
O feno-grego (Trigonella foenum-graecum) pode contribuir para o controle glicêmico por diferentes mecanismos.
Seu elevado conteúdo de fibras e pectina pode retardar o trânsito gastrointestinal, diminuir a velocidade de digestão dos carboidratos e, consequentemente, reduzir sua absorção.
Além disso, os aminoácidos presentes no feno-grego podem estimular a liberação de insulina quando as concentrações de glicose estão elevadas.
De acordo com a fonte citada na revisão, doses de 10 a 15 g/dia são utilizadas para controle do diabetes.
Atenção: o feno-grego pode aumentar o risco de hipoglicemia quando associado a outros agentes hipoglicemiantes e pode aumentar o risco de sangramento quando utilizado concomitantemente com antiplaquetários ou anticoagulantes. Também requer cautela durante a gestação devido ao possível efeito estimulante sobre o útero.
4. Vitamina D
Diversos estudos encontraram uma associação entre baixos níveis de vitamina D e maior risco de diabetes.
Também foram observadas variações sazonais no controle glicêmico de pessoas com diabetes tipo 2, com pior controle durante o inverno, período em que a deficiência de vitamina D tende a ser mais frequente.
Entretanto, como parte dessas evidências é proveniente de estudos observacionais, não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito.
Uma das hipóteses para essa relação é que a vitamina D participe da estimulação da liberação de insulina pelas células beta pancreáticas.
5. Cromo
O cromo é estudado principalmente por seu possível papel na ação da insulina.
Modelos experimentais sugerem que o mineral poderia prolongar a ação do receptor de insulina, estimulando vias relacionadas ao metabolismo da glicose.
Também existem hipóteses de que o cromo possa aumentar a expressão dos receptores de insulina, melhorar a ligação da insulina ao receptor e favorecer a sensibilidade das células à ação desse hormônio.
6. Canela
A canela é uma especiaria amplamente estudada em relação ao metabolismo da glicose.
Uma das hipóteses é que seus compostos possam melhorar a sinalização da insulina por meio da fosforilação da tirosina quinase do receptor de insulina, aumentando a sensibilidade à insulina.
Extratos de canela também foram relacionados à modulação de fatores de transcrição e dos transportadores GLUT4, envolvidos na entrada de glicose nas células.
7. Momordica charantia
Conhecida como melão amargo, a Momordica charantia também apresenta estudos relacionados ao controle glicêmico.
Em um dos trabalhos citados, participantes que receberam o extrato apresentaram redução da glicemia de jejum após 12 semanas de utilização.
Embora os resultados sejam interessantes, são necessários estudos adicionais para determinar melhor sua eficácia, dose e aplicação clínica.
8. Gymnema sylvestre
A Gymnema sylvestre também vem sendo estudada como estratégia complementar para o controle do diabetes.
Uma revisão concluiu que pessoas com diabetes tipo 1 ou tipo 2 que utilizaram Gymnema apresentaram sinais de melhora no controle da glicose.
Em pessoas com diabetes tipo 1, a utilização do extrato das folhas durante 18 meses esteve associada à redução significativa da glicemia de jejum em comparação com o grupo que utilizou apenas insulina.
Em pacientes com diabetes tipo 2, estudos com a folha ou seus extratos também observaram redução da glicemia e aumento dos níveis de insulina.
Conclusão
Os estudos apresentados mostram que diferentes fitoterápicos, vitaminas e minerais vêm sendo investigados como estratégias complementares no controle do diabetes.
Ginseng, nicotinamida, feno-grego, vitamina D, cromo, canela, Momordica charantia e Gymnema sylvestre apresentam mecanismos e níveis de evidência diferentes, e seus resultados não devem ser interpretados como equivalentes.
A possibilidade de personalizar a formulação magistral, combinando diferentes insumos de acordo com as necessidades do paciente, torna esse campo especialmente interessante para a farmácia magistral.
No entanto, esses suplementos não substituem o tratamento convencional do diabetes e algumas associações podem potencializar efeitos como a hipoglicemia. Por isso, a escolha dos insumos e das doses deve considerar o quadro clínico, os medicamentos utilizados e o acompanhamento do paciente.
Relevância para a prática magistral
Esse conjunto de evidências oferece ao farmacêutico e ao prescritor um panorama de diferentes insumos que podem ser considerados em estratégias complementares individualizadas para o controle glicêmico.
O principal diferencial da manipulação está na possibilidade de adequar associações, concentrações e formas farmacêuticas às necessidades específicas de cada paciente, sempre respeitando as evidências disponíveis e os cuidados de segurança.
Bibliografia consultada:
Kim SK; et al. Hypoglycemic efficacy and safety of Momordica charantia (bitter melon) in patients with type 2 diabetes mellitus. Complement Ther Med, 2020.
Yilmaz Z; et al. Supplements for Diabetes Mellitus: A Review of the Literature. J Pharm Pract, 2017
Ghorbani A. Best herbs for managing diabetes: a review of clinical studies. Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences, 2013.
