Maior ingestão de vitamina C está associada a menor risco de diversos tipos de câncer

Maior ingestão de vitamina C está associada a menor risco de diversos tipos de câncer

Linus Pauling (1901–1994) foi um dos cientistas mais importantes do século XX, com contribuições marcantes para a química e também para a medicina. Entre suas ideias mais conhecidas estava a possibilidade de que altas doses de vitamina C pudessem exercer efeitos benéficos na prevenção e no tratamento do câncer.

Décadas depois, uma meta-análise publicada na Frontiers in Nutrition avaliou justamente a relação entre a ingestão de vitamina C e diferentes tipos de câncer, encontrando associações relevantes entre maior consumo do nutriente e menor risco de diversas neoplasias.


O que a análise encontrou?

Os pesquisadores realizaram uma revisão de 19 meta-análises que avaliaram a relação entre ingestão de vitamina C e câncer.

Quando comparados aos indivíduos com menor ingestão, aqueles que apresentavam maior consumo de vitamina C apresentaram menor risco para diversos tipos de câncer:

Tipo de câncerRedução do risco
Colo do útero42%
Carcinoma de células renais22%
Bexiga16%
Endométrio15%
Mama11%
Próstata11%
Glioma14%
Pulmão17%

Os resultados também chamaram atenção quando os pesquisadores analisaram especificamente os cânceres do sistema digestivo.

A maior ingestão de vitamina C esteve associada a:

  • 42% menor risco de câncer de esôfago;
  • 34% menor risco de câncer de estômago;
  • 30% menor risco de câncer pancreático.

E quanto ao câncer de mama?

A análise encontrou associações particularmente interessantes entre o consumo de vitamina C e alguns desfechos relacionados ao câncer de mama.

Entre pacientes com câncer de mama, uma maior ingestão do nutriente esteve associada a:

  • 19% menor risco de recorrência;
  • 22% menor risco de mortalidade por câncer de mama;
  • 18% menor risco de mortalidade por todas as causas.

Esses resultados, entretanto, devem ser interpretados como associações observadas nos estudos analisados, e não como demonstração de que a vitamina C seja capaz de tratar ou impedir a progressão do câncer.


Cada 100 mg a mais também fizeram diferença

Na análise que considerou o conjunto dos diferentes tipos de câncer, os pesquisadores observaram uma relação dose-resposta.

Cada aumento de 100 mg/dia na ingestão de vitamina C esteve associado a uma redução de aproximadamente 7% no risco de câncer.

Esse achado reforça o interesse em investigar a relação entre ingestão de vitamina C e câncer, embora não estabeleça uma dose específica de suplementação para prevenção da doença.


O que esses resultados significam?

A vitamina C apresenta propriedades antioxidantes e participa de diversas funções fisiológicas. Por isso, existe interesse científico em compreender se sua ingestão pode influenciar mecanismos envolvidos no desenvolvimento de doenças crônicas.

Entretanto, é importante diferenciar maior ingestão de vitamina C de suplementação em altas doses.

A meta-análise avaliou a relação entre ingestão de vitamina C e diferentes desfechos relacionados ao câncer. Portanto, seus resultados não permitem concluir que altas doses de vitamina C em suplementos previnam ou tratem o câncer.

São necessários estudos clínicos que esclareçam melhor essa relação e determinem se existe benefício causal, quais doses seriam necessárias e em quais grupos de pacientes esse efeito poderia ser relevante.


Conclusão

A análise de 19 meta-análises encontrou uma associação entre maior ingestão de vitamina C e menor risco de diversos tipos de câncer, com resultados particularmente expressivos para câncer do colo do útero, esôfago, estômago, pâncreas e carcinoma renal.

Além disso, entre pacientes com câncer de mama, uma maior ingestão de vitamina C esteve associada a menores riscos de recorrência e mortalidade.

Os resultados são promissores e ajudam a reforçar a importância de investigar o papel dos nutrientes na prevenção de doenças. Porém, não devem ser interpretados como evidência de que a suplementação em altas doses de vitamina C seja um tratamento ou estratégia comprovada de prevenção do câncer.


Relevância para a prática magistral

A vitamina C é um insumo amplamente conhecido na prática magistral e apresenta grande versatilidade de utilização. Estudos como este ajudam o profissional a compreender melhor o contexto científico em que o nutriente vem sendo investigado, especialmente em estratégias relacionadas à nutrição, antioxidantes e promoção da saúde.

Para a farmácia de manipulação, o tema também representa uma oportunidade de desenvolver conteúdo técnico para apresentação aos prescritores, mostrando novas evidências sobre nutrientes já presentes na rotina magistral.

É importante, contudo, que a comunicação com o prescritor seja cuidadosa: os resultados apresentados demonstram associações entre ingestão de vitamina C e risco de câncer, mas não comprovam efeito preventivo ou terapêutico da suplementação em altas doses. A individualização da formulação e da dose deve partir da avaliação clínica e da indicação do profissional habilitado.

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Bibliografia consultada:

Chen Z; et al. Vitamin C Intake and Cancers: An Umbrella Review. Frontiers in Nutrition, 2022.

 

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