Desde que a ANVISA autorizou o uso da melatonina como suplemento alimentar no Brasil, uma dúvida passou a dominar as discussões entre profissionais da saúde: a dose máxima permitida de 0,21 mg realmente é eficaz?
Enquanto alguns consideram essa quantidade insuficiente para produzir efeitos clínicos relevantes, outros destacam que a decisão representa um importante avanço regulatório, permitindo que farmacêuticos e nutricionistas também possam prescrever melatonina dentro dos limites estabelecidos para suplementos alimentares. Doses superiores continuam sendo enquadradas como medicamentos e dependem de prescrição médica.
Mas, afinal, o que a literatura científica demonstra sobre a eficácia das baixas doses de melatonina?
A melatonina vai muito além do sono
A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal durante o período noturno em resposta à ausência de luz. Sua principal função é sincronizar o ritmo circadiano, preparando o organismo para o início do sono.
Nas últimas décadas, entretanto, seu uso extrapolou o tratamento da insônia e do jet lag. Atualmente existem dezenas de milhares de estudos publicados investigando sua participação em diversas condições clínicas, incluindo:
- distúrbios do sono;
- envelhecimento;
- doenças neurodegenerativas;
- câncer;
- transtornos psiquiátricos;
- autismo;
- doenças cardiovasculares;
- síndrome metabólica;
- processos inflamatórios e oxidativos.
Uma simples busca pelo termo “melatonin” no PubMed retorna dezenas de milhares de publicações científicas.
Qual é a dose normalmente utilizada nos estudos?
A maior parte dos estudos clínicos utiliza doses entre 0,5 mg e 5 mg, dependendo do objetivo terapêutico.
Entretanto, existem pesquisas utilizando doses muito superiores — algumas acima de 50 mg — principalmente em estudos envolvendo câncer e doenças neurodegenerativas, onde a melatonina é investigada por seus efeitos antioxidantes, imunomoduladores e anti-inflamatórios, e não apenas pela indução do sono.
Por outro lado, diversos trabalhos demonstram que doses fisiológicas muito menores já são capazes de produzir benefícios para o sono.
Doses baixas também apresentam eficácia
Um dos estudos clássicos avaliou idosos com mais de 50 anos que receberam placebo ou melatonina nas doses de:
- 0,1 mg
- 0,3 mg
- 3 mg
administradas durante uma semana, aproximadamente 30 minutos antes de dormir.
Os pesquisadores observaram melhora da qualidade do sono tanto com 0,1 mg quanto com 3 mg, demonstrando que doses extremamente baixas já podem exercer efeito fisiológico.
Esses resultados reforçam um conceito importante: mais melatonina nem sempre significa melhor resposta clínica.
Existe uma dose ideal?
A resposta é: provavelmente não.
A necessidade de melatonina varia entre os indivíduos e depende de diversos fatores, como:
- idade;
- produção endógena;
- cronotipo;
- intensidade da exposição à luz;
- uso de medicamentos;
- doenças associadas.
Por isso, muitos especialistas recomendam iniciar o tratamento com doses menores e realizar ajustes apenas quando necessário.
Doses elevadas podem aumentar os efeitos adversos
Embora a melatonina seja considerada uma molécula extremamente segura, doses excessivas podem aumentar a ocorrência de efeitos adversos.
Entre eles destacam-se:
- sonolência residual pela manhã;
- tontura;
- sonhos intensos;
- hipotermia;
- hiperprolactinemia;
- possível dessensibilização dos receptores de melatonina após uso prolongado de doses elevadas.
Uma meta-análise envolvendo 16 estudos mostrou que, à medida que a dose aumentava, também aumentava a frequência de efeitos adversos.
Por esse motivo, diversos autores defendem a utilização da menor dose eficaz.
Quanto o organismo produz naturalmente?
Em adultos jovens saudáveis, a concentração plasmática de melatonina permanece muito baixa durante o dia (aproximadamente 8 a 10 pg/mL) e aumenta rapidamente após o início da noite, atingindo concentrações entre 100 e 200 pg/mL.
Estudos mostram que uma única dose entre 0,2 mg e 0,5 mg é suficiente para restaurar, durante algumas horas, concentrações plasmáticas semelhantes às observadas fisiologicamente em indivíduos jovens.
Esse dado ajuda a explicar por que doses inferiores a 1 mg podem ser eficazes em muitos pacientes.
O que mostram as meta-análises?
Uma meta-análise envolvendo 1.683 participantes, utilizando doses entre 0,1 mg e 5 mg, demonstrou que a suplementação foi capaz de:
- reduzir a latência para início do sono;
- aumentar o tempo total de sono;
- melhorar a eficiência do sono.
Curiosamente, embora alguns estudos tenham observado benefícios discretamente maiores com doses elevadas, a análise global concluiu que a melhora da qualidade do sono ocorre em praticamente todas as faixas de dose estudadas, sugerindo que o aumento indiscriminado da dose pode não trazer benefícios proporcionais.
Então, 0,21 mg funciona?
Sob a ótica científica, a resposta é sim, pode funcionar.
Embora esteja abaixo da faixa utilizada na maioria dos estudos clínicos (0,5 a 5 mg), a literatura demonstra que doses entre 0,1 e 0,3 mg já são capazes de restaurar concentrações fisiológicas noturnas de melatonina e melhorar parâmetros relacionados ao sono em parte dos indivíduos.
Naturalmente, essa dose pode não ser suficiente para todos os pacientes. Pessoas com produção muito reduzida de melatonina, idosos ou indivíduos com determinados distúrbios do sono podem necessitar de doses superiores, sempre sob avaliação médica.
Como está a regulamentação em outros países?
Em diversos países, como Estados Unidos e boa parte da Europa, a melatonina é comercializada como suplemento alimentar em concentrações muito superiores às autorizadas no Brasil, sendo comum encontrar produtos contendo entre 1 mg e 10 mg por dose.
No Brasil, a regulamentação optou por um limite bastante mais conservador para suplementos alimentares.
Conclusão
A dose de 0,21 mg, autorizada pela ANVISA para suplementos alimentares, realmente é inferior àquela empregada na maioria dos estudos clínicos. No entanto, isso não significa que seja ineficaz. Pelo contrário, diversas pesquisas demonstram que doses fisiológicas entre 0,1 e 0,3 mg já podem restaurar os níveis noturnos de melatonina e melhorar parâmetros relacionados ao sono.
Dessa forma, a estratégia mais racional continua sendo aquela amplamente defendida na literatura científica: iniciar com a menor dose eficaz e individualizar o tratamento conforme a resposta clínica, sempre considerando as características e necessidades de cada paciente.
Bibliografia consultada
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