A serotonina é frequentemente associada à depressão, e muitos dos antidepressivos mais utilizados atuam sobre esse neurotransmissor, principalmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).
Mas será que a depressão é realmente causada pela falta de serotonina no cérebro?
Uma revisão sistemática publicada na revista Molecular Psychiatry reuniu evidências de diferentes linhas de pesquisa para investigar justamente essa hipótese.
O que os estudos mostram sobre a serotonina?
A revisão analisou estudos envolvendo dezenas de milhares de participantes, avaliando diferentes aspectos relacionados ao sistema serotoninérgico.
1. Níveis de serotonina
Estudos que compararam os níveis de serotonina e seus produtos de degradação no sangue e nos fluidos cerebrais não encontraram diferenças entre pessoas com depressão e indivíduos saudáveis.
Isso sugere que a depressão não pode ser explicada simplesmente por níveis reduzidos de serotonina.
2. Receptores e transportadores de serotonina
Os pesquisadores também analisaram estudos sobre os receptores de serotonina e o transportador de serotonina, que é justamente uma das principais proteínas-alvo dos antidepressivos.
Foram encontradas evidências fracas e inconsistentes que poderiam sugerir uma atividade serotoninérgica maior em pessoas com depressão.
Entretanto, os autores ressaltam uma importante limitação: não foi possível descartar com segurança que essas alterações fossem consequência do próprio uso de antidepressivos.
3. Reduzir artificialmente a serotonina causa depressão?
Outra linha de pesquisa investigada foi a chamada depleção de triptofano.
O triptofano é um aminoácido necessário para a produção de serotonina. Assim, alguns estudos reduziram temporariamente sua disponibilidade por meio da alimentação para verificar se a diminuição da serotonina provocaria sintomas depressivos.
O resultado foi surpreendente:
a redução artificial da serotonina não produziu depressão na maioria das pessoas estudadas.
Houve apenas evidências muito fracas de um possível efeito em um pequeno subgrupo de indivíduos com histórico familiar de depressão, envolvendo apenas 75 participantes.
4. E a genética?
Estudos envolvendo dezenas de milhares de pessoas também investigaram variações genéticas relacionadas ao sistema serotoninérgico, incluindo o gene responsável pelo transportador de serotonina.
Não foram identificadas diferenças consistentes nesses genes entre pessoas com depressão e indivíduos saudáveis.
Então a depressão não tem relação com serotonina?
A conclusão dos autores é que não há suporte para a hipótese de que a depressão seja causada simplesmente por uma redução na atividade ou nas concentrações de serotonina.
Isso é diferente de afirmar que a serotonina não participa da depressão ou que os antidepressivos não funcionam.
A revisão não teve como objetivo avaliar a eficácia dos antidepressivos. Portanto, seus resultados não permitem concluir que os antidepressivos sejam ineficazes ou que devam ser interrompidos.
O que os resultados questionam é uma explicação excessivamente simplificada da depressão como sendo apenas consequência de uma “deficiência de serotonina”.
O que isso muda na compreensão da depressão?
A depressão é uma condição complexa e provavelmente envolve a interação de múltiplos fatores biológicos, psicológicos e ambientais.
Diante disso, os autores defendem que a abordagem terapêutica também deve considerar outros aspectos, incluindo o gerenciamento de eventos estressantes ou traumáticos, além de estratégias como psicoterapia, exercícios e atenção plena.
Conclusão
A ideia de que “depressão é falta de serotonina” pode ser uma explicação simples demais para uma condição muito mais complexa.
A revisão publicada na Molecular Psychiatry não encontrou evidências consistentes de que pessoas com depressão apresentem simplesmente níveis reduzidos de serotonina. Ao mesmo tempo, o trabalho não avaliou a eficácia dos antidepressivos, portanto não permite concluir que esses medicamentos não funcionem.
O estudo reforça, principalmente, a necessidade de compreender a depressão de maneira mais ampla e de considerar diferentes mecanismos e estratégias terapêuticas.
Relevância para a prática magistral
O tema é particularmente relevante para conteúdos relacionados à saúde mental e estratégias magistrais, pois ajuda a evitar uma interpretação simplificada sobre o funcionamento dos antidepressivos.
Para o prescritor, a principal mensagem é que a ação dos antidepressivos sobre a serotonina não significa necessariamente que a depressão seja causada por uma deficiência desse neurotransmissor. A fisiopatologia da doença é mais complexa, e diferentes mecanismos podem estar envolvidos.
Bibliografia consultada:
Moncrieff J; et al. The serotonin theory of depression: a systematic umbrella review of the evidence. Molecular Psychiatry, 2022.
