Óleo de peixe oxidado pode apresentar riscos durante a gestação

Óleo de peixe oxidado pode apresentar riscos durante a gestação

Os suplementos de óleo de peixe são frequentemente utilizados durante a gestação devido à presença dos ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa ômega-3, especialmente EPA (ácido eicosapentaenoico) e DHA (ácido docosahexaenoico).

Esses ácidos graxos são importantes para diferentes funções do organismo e estudos associam seu consumo a benefícios relacionados ao desenvolvimento cognitivo e à atenção das crianças, além da saúde cardiovascular na vida adulta.

Mas existe um aspecto importante que precisa ser considerado na escolha de um suplemento de óleo de peixe: a oxidação do óleo.


Por que o óleo de peixe pode oxidar?

Os ácidos graxos ômega-3 apresentam várias duplas ligações em sua estrutura química, característica que os torna particularmente suscetíveis à oxidação.

A qualidade oxidativa do óleo pode ser avaliada por diferentes parâmetros. Entre eles estão:

  • Valor de peróxido (PV): indica a concentração de peróxidos lipídicos, considerados produtos da oxidação primária;
  • Valor de anisidina (AV): indica principalmente produtos da oxidação secundária, como aldeídos e cetonas.

Embora existam diferentes níveis recomendados para esses marcadores, os pesquisadores destacam que esses limites não foram necessariamente estabelecidos com base em avaliações dos efeitos sobre saúde e segurança do consumo de óleo de peixe oxidado.

Essa questão ganha ainda mais importância durante a gestação, período em que a segurança dos suplementos precisa ser cuidadosamente considerada.


O que o estudo avaliou?

Como um estudo de toxicidade controlado não poderia ser realizado em gestantes humanas por questões éticas, pesquisadores utilizaram ratas Sprague-Dawley prenhes para investigar uma possível relação entre o grau de oxidação do óleo de peixe e seus efeitos durante a gestação.

As ratas receberam diariamente diferentes preparações durante a gravidez:

  1. controle, sem óleo de peixe;
  2. óleo com PV 5 meq/kg;
  3. óleo com PV 10 meq/kg;
  4. óleo com PV 40 meq/kg;
  5. uma dose maior de óleo com PV 40 meq/kg.

Os pesquisadores acompanharam as mães e os filhotes e registraram, entre outros parâmetros, a mortalidade neonatal.


Quanto maior a oxidação, maior o risco?

Os resultados mostraram uma diferença importante.

Não foram observados sinais de mal-estar durante a gestação. Entretanto, houve um aumento acentuado da mortalidade neonatal nos grupos que receberam óleo altamente oxidado, com PV de 40 meq/kg.

A mortalidade foi de:

  • 12,8% no grupo que recebeu a maior dose de óleo com PV 40;
  • 6,3% no grupo que recebeu PV 40;
  • aproximadamente 1% a 1,4% nos grupos controle, PV 5 e PV 10.

Além disso, o óleo de peixe altamente oxidado alterou a expressão de genes placentários relacionados às vias antioxidantes e à produção de radicais livres.


E os óleos com menor grau de oxidação?

Um dos achados mais relevantes foi que não foram observados efeitos tóxicos nos animais que receberam óleo com valor de peróxido ≤10 meq/kg.

A partir desses resultados, os autores sugeriram, como medida de precaução, que gestantes não consumam suplementos de óleo de peixe com valor de peróxido superior a 10 meq/kg.

É importante destacar que essa recomendação deriva de um estudo experimental em animais e não deve ser interpretada como um limite de segurança definitivamente estabelecido para seres humanos.


O que isso significa para a qualidade do suplemento?

A boa notícia é que, segundo pesquisas citadas pelos autores sobre a qualidade de suplementos de óleo de peixe, apenas cerca de 2% dos produtos avaliados mundialmente apresentaram valor de peróxido superior a 10 meq/kg.

Isso reforça a importância de avaliar não apenas a quantidade de EPA e DHA presente no produto, mas também a qualidade e o estado de conservação da matéria-prima lipídica.


Conclusão

O estudo sugere que óleos de peixe altamente oxidados podem apresentar efeitos tóxicos durante a gestação, pelo menos em modelos animais.

O óleo com PV ≤10 meq/kg não apresentou efeitos tóxicos no modelo estudado, enquanto preparações com PV 40 meq/kg foram associadas a aumento expressivo da mortalidade neonatal e alterações em genes placentários.

Para a prática magistral, o resultado chama atenção para um ponto muitas vezes menos discutido: não basta conhecer a concentração de EPA e DHA de um óleo de peixe; é fundamental conhecer também sua qualidade oxidativa.

.

Bibliografia consultada:

Satokar VV; et al. Toxicity of oxidizedfish oil in pregnancy: a dose-response study in rats. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol, 2022.

WhatsApp
Facebook
Telegram
Twitter
LinkedIn