É bem conhecido que o consumo excessivo de sal (sódio) está associado à elevação da pressão arterial e ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, incluindo infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Por isso, uma das principais recomendações para pessoas com pressão elevada é reduzir a ingestão de sódio. Na prática, porém, essa mudança pode ser difícil, especialmente em dietas com grande participação de alimentos processados.
Nesse contexto, o potássio chama atenção por favorecer a eliminação de sódio pela urina e por seus possíveis efeitos independentes sobre a saúde cardiovascular.
Um estudo publicado no European Heart Journal avaliou justamente a relação entre a ingestão de potássio, pressão arterial e eventos cardiovasculares.
Quanto maior o potássio, menor a pressão?
O estudo incluiu 24.963 participantes, sendo 11.267 homens e 13.696 mulheres, com idade média de 59 anos para os homens e 58 anos para as mulheres.
Os participantes responderam questionários sobre hábitos de vida, tiveram a pressão arterial medida e forneceram amostras de urina. As concentrações urinárias de sódio e potássio foram utilizadas para estimar a ingestão alimentar.
Os pesquisadores então dividiram os participantes em grupos de acordo com a ingestão de sódio e potássio.
Os resultados mostraram uma associação entre maior consumo de potássio e menor pressão arterial nas mulheres.
Mas houve um detalhe importante.
O efeito foi maior entre mulheres que consumiam muito sal
Quando os pesquisadores analisaram os resultados de acordo com a ingestão de sódio, a associação entre potássio e pressão arterial foi observada principalmente nas mulheres com alta ingestão de sódio.
Nesse grupo, cada aumento de 1 g na ingestão diária de potássio esteve associado a uma redução de 2,4 mmHg na pressão arterial sistólica.
Entre os homens, não foi observada associação significativa entre consumo de potássio e pressão arterial.
E quanto ao risco cardiovascular?
Os participantes foram acompanhados durante uma média de 19,5 anos.
Nesse período, 13.596 pessoas (55%) foram hospitalizadas ou morreram em decorrência de doenças cardiovasculares.
Após os ajustes para diversos fatores de risco, os pesquisadores observaram que os participantes que apresentavam maior ingestão de potássio tinham:
13% menos risco de eventos cardiovasculares em comparação com aqueles que apresentavam menor ingestão.
Quando homens e mulheres foram avaliados separadamente:
- homens: redução de 7% no risco;
- mulheres: redução de 11% no risco.
Curiosamente, a quantidade de sal consumida não modificou a associação entre o potássio e os eventos cardiovasculares.
O potássio protege o coração apenas porque elimina o sódio?
Não necessariamente.
Uma das funções conhecidas do potássio é favorecer a excreção de sódio pela urina, o que pode contribuir para a redução da pressão arterial.
Entretanto, os resultados cardiovasculares observados no estudo foram semelhantes independentemente da quantidade de sal consumida. Isso sugere que o potássio pode apresentar outros mecanismos de proteção cardiovascular além de simplesmente aumentar a eliminação de sódio.
Conclusão
Os resultados sugerem que uma maior ingestão de potássio está associada a menor pressão arterial em mulheres, especialmente naquelas com elevada ingestão de sódio, além de estar relacionada a um menor risco de eventos cardiovasculares.
Embora os benefícios sobre a pressão arterial tenham sido mais evidentes nas mulheres, a associação entre maior consumo de potássio e menor risco cardiovascular também foi observada nos homens.
O estudo reforça, portanto, a importância de uma alimentação adequada não apenas pela redução do sódio, mas também pela adequada ingestão de potássio.
Relevância para a prática magistral
O estudo é interessante para conteúdos relacionados a saúde cardiovascular, hipertensão e equilíbrio de eletrólitos, especialmente por mostrar que estratégias nutricionais podem envolver não apenas a redução de sódio, mas também a adequação da ingestão de potássio.
Além disso, a utilização de suplementos de potássio deve considerar as condições clínicas e os medicamentos utilizados pelo paciente, já que o excesso desse mineral pode ser prejudicial em determinadas situações.
Bibliografia consultada:
Rosa DW; et al. Sex-specific associations between potassium intake, blood pressure, and cardiovascular outcomes: the EPIC-Norfolk study. European Heart Journal, 2022
